Educação Pandemia

A pandemia e o tempo de reflexões em torno do autoconhecimento, do cuidar de si e do outro

por Elineide de Arruda Carvalho

30/07/2021

Estamos vivendo em um período de grandes progressos e avanços tecnológicos que nos permitem a conexão com pessoas e lugares mais diversos, nunca antes imagináveis. Contudo ainda temos dificuldade de nos aproximarmos dos outros, dos que convivem conosco e de nós mesmos.

O que impede essa aproximação, essa convivência? Muitas vezes é não nos percebermos para nos conhecermos e compreendermos que somos constituídos pelas mesmas dúvidas e imperfeições constatadas no outro.

Como superar isso?

Construindo/aperfeiçoando as nossas habilidades, sentimentos, emoções e pensamentos por meio do autoconhecimento e da autoescuta. Percebendo e acolhendo o que temos internamente sejam as inquietações, tristezas, anseios, medos, confiança, força, otimismo ou alegria diante do vivido. É um caminho que precisamos percorrer. Somos seres integrais, com dimensões que compõem nossa essência enquanto ser. Portanto somos não só dimensão física e cognitiva, mas também emocional, mental e espiritual. Deste modo, muitas vezes somos movidos(as) por emoções que não conhecemos com clareza ou fingimos não conhecer, usando recursos outros de fugas. Assim, devemos buscar os motivos dessas emoções que geram angústias, tristezas, inquietudes, medos para ampliarmos nosso autoconhecimento, nossa consciência para o tempo do autocuidado, do amadurecimento das nossas habilidades positivas de modo a encontrarmos o caminho do equilíbrio, da quietude, do bem-estar. Com o desenvolvimento dessas dimensões socioemocionais, aprenderemos a conviver melhor com nós mesmos e com o outro. Poderemos cuidar de nós e do outro num processo de relações interpessoais.

Reconhecer e compreender essas emoções nos ajudarão a termos clareza sobre onde queremos chegar e quem somos, pois nosso comportamento e respostas às situações externas indicam que somos regidos(as) muito mais por nossas dimensões mentais, emocionais e espirituais (sentido de vida) do que por nossos conhecimentos cognitivos/racionais. É preciso identificar esses processos internos para alcançarmos mais controle sobre nossas ações e, principalmente, sobre o resultado delas.

Seria portanto, criar uma técnica, um passo a passo para desenvolvermos o autoconhecimento, o autocuidado? Apendemos que não. Não é uma técnica, um manual com passo a passo. É uma postura que devemos ter com nós mesmos, com a vida e com as relações que mantemos, construída de dentro pra fora, num processo interno contínuo de busca, de descoberta, de aceitação para sermos agentes transformadores.

Porque, enquanto seres históricos, somos seres inacabados e precisamos estar cientes da nossa incompletude, para que possamos nos constituir, num processo dialético de construção e reconstrução sempre…

O filósofo e professor Mario Sergio Cortella, no livro “Não nascemos prontos!:provocações filosóficas.”, nos apresenta a seguinte reflexão: “Por que a gente já não nasce pronto, sabendo todas as coisas? Bela e ingênua perspectiva. É fundamental não nascermos sabendo e nem prontos…”  Deste modo, compreendemos que essa é uma jornada pessoal, individual, trilhada com a ajuda do conhecimento conquistado, da família, dos amigos, da experiências, de outrem.

Como dissemos, não compreender o que nos inquieta, nos impede de sermos felizes, de termos quietude e equilíbrio nas ações diárias. E isso é o que constitui nosso autoconhecimento.

Para tanto, é imperioso mobilizarmos nossa vontade para mudarmos concretamente o que não está bem ou saudável em nós, começando pelas pequenas coisas, na nossa lida diária, e de forma contínua.

Um recurso importante para essa “construção” seria a autoescuta pela conexão com nosso eu interior. Esse processo nos permite conhecer nossas características, emoções, atitudes, pensamentos, sentimentos… Enfim, autoavaliar nossas virtudes e limitações para aceitarmos quem somos, de modo a aperfeiçoarmos nossa relação com o outro, aceitando-o e acolhendo-o.

Nesses dias de isolamento social – que é físico, mas não emocional, não sentimental -, devemos tecer diálogos humanizados, com uma escuta compreensiva, acolhedora; sentir juntos nosso pertencimento ao humano que há em nós. Precisamos estar abertos a escutar o outro, a sermos afetivos e respeitosos pelas necessidades do outro e pelas suas memórias emocionais e afetivas, aceitando sua humanidade como nossa. Ou seja, sendo empáticos(as).

Ao estarmos presentes, decidindo acolher o outro nas suas dores, nos seus medos, nas suas incertezas e ajudando-o a amenizar/superar as dificuldades nesse “novo normal”, reconhecemo-nos nele e também construímos o autoconhecimento. Afinal, quando ajudamos o outro a despertar, a se sensibilizar para esses processos de busca interior, promovemos o encantamento pela vida, o brilho no olhar, a alegria de viver, apesar das adversidades.

Nossa existência também é pautada por idas e vindas, onde, muitas vezes, nos encontramos sozinhos e sozinhas. Nesse momento, a escuta compreensiva e a autoescuta é primordial/essencial para superação desses dias difíceis. Porque, com frequência, a sociedade nos impõe necessidades e gera emoções que não são nossas. Isso gera desconfortos, angústias e incapacidades, sobre os quais precisamos refletir: “Isso é, de fato, uma necessidade minha ou se trata de uma imposição social?”. Escutarmos nosso eu interior é um caminho para aprendermos a “soltar” o que não agrega à nossa vida, para que sejamos mais felizes, com maior bem-estar íntimo e com maior equilíbrio.

A autoescuta dá sentido e significado à nossa existência, à nossa espiritualidade, ao nosso eu. Como nos propõe o psicólogo e palestrante Rossandro Klinjey, “Não deixe mais que o seu coração seja um terreno baldio para o lixo afetivo ou a miséria moral dos outros…”. Essa é uma fundamental reflexão para trilharmos nossas escolhas, atitudes e ações diárias.

Devemos aproveitar esses dias difíceis (mas que, com certeza, passarão!) para ressignificar e reconstruir nossa humanidade, o nosso viver, buscando nossa amorosidade, refletindo juntos e juntas sobre qual nosso foco / objetivo; como está nosso encantamento pela vida. Compreendendo o nosso “poder” curador e renovador por meio da autoescuta, do autocuidado, da aceitação das nossas limitações, mas, sobretudo, do foco nas nossas possibilidades de construção e reconstrução da nossa identidade, transformaremos em aprendizado, as vivências e experiências diárias, redescobrindo a beleza do conviver e do bem viver.

Lembrando que nossa felicidade, bem-estar, equilíbrio são o resultado das nossas escolhas, a fim de desenvolvermos o autoconhecimento, devemos valorizar cada detalhes, cada conquista, cada aprendizado, ação, atitude, emoção e sentimentos construídos. Faz-se necessário ressignificar nossa essência enquanto ser integral e a relação com o outro: a nossa presença/ausência pelo olhar, diálogos, saberes, experiências e afetos compartilhados.

Importante estarmos comprometidos(as) com o nosso autoconhecimento, com nossa autoescuta, desenvolvendo e aprimorando nossa humanização, nosso autocuidado, nestes dias pandêmicos e nos vindouros, para a superação das adversidades, das dores, das perdas, da solidão. Pois, como bem falamos, somos seres inconclusos, inacabados… Assim, urge humanizarmo-nos, por meio do cultivo dos valores éticos, sentimentos e emoções saudáveis advindos do cuidar de si e do outro.

Que os versos da música “Amanhã” de Guilherme Arantes sejam inspiradores para o nosso caminhar; que a luminosidade que existe em nós nos proporcione sempre o melhor de nós mesmos, para nós e aos outros. Sigamos firmes…

 Elineide de Arruda Carvalho

 

 REFERÊNCIAS:

ARANTES. Guilherme. Amanhã. Letras.mus.br. Disponível em: https://www.letras.mus.br/guilherme-arantes/46300/ Acesso em: 31/03/2021

 

CORTELA, Mário Sérgio. Não nascemos prontos!: provocações filosóficas. Editora Vozes-Nobilis, Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. 19º Edição.

 

KLINJEY. Rossandro. Vídeo “Fica”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5RjoGpS1JbA

Acesso em: 31/03/2021

 

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Comentários sobre o texto

  1. Evandro Ribeiro de Souza disse:

    Belissimo texto,
    O autoconhecimento é fundamental para que possamos idealizar projetos para nossas vidas, principalmente num mundo tão diverso, dinâmico, competitivo como o que estamos vivendo.

  2. ALECSANDRO RODRIGUES DE ARAUJO disse:

    Excelente texto, claro e objetivo. Mostrando como devemos enfrentar e sairmos bem nesse período de pandemia. O autoconhecimento e nossa tranquilidade emocional são importantes para nossa evolução nesse período. Parabéns pelo texto.

  3. Edgar Santos disse:

    Texto grandioso! Reflexões fundamentais nesse período difícil. Parabéns para a autora!

  4. Juliane Galvao disse:

    Reflexões importantes para pensarmos nos desafios diários que enfrentamos nessa pandemia.
    Certamente o autoconhecimento e o cuidado de si ajudam bastante a superar nossas angústias e medos. Gostei bastante da ênfase a importância aos vínculos afetivos e sociais.

    Parabéns pelas reflexões.

  5. Flávio Da Paz Ferreira disse:

    Um belíssimo texto e de muita clareza da Psicopedagoga Elineide de Arruda.

  6. Maria de Fátima dos Santos Alves disse:

    Uma reflexão, que nos transmite segurança e ensinamentos sobre a importância de compreendermos a nossa essência. Quando assim acontece, conseguimos lidar com os desafios existenciais, o que possibilita também cuidar do próximo. Parabéns, Elineide, pelo texto é especialmente pela pessoa que és.

  7. Edna Cristina da Silva Souza disse:

    A música fechou a reflexão de com um olhar no futuro e uma resinificação que o momento pede.

  8. Maria Cândida Sérgio disse:

    Querida Elineide, acabei de ler o seu texto!

    Uma excelente reflexão para o nosso dia a dia! Palavras verdadeiras e necessárias para olharmos para nós e para o outro, sobretudo, em um cenário tão difícil e complexo que estamos vivenciando agora. O texto nos possibilita encontros com nós mesmos e com o outro.

    Abraços!

  9. Marcos Dornelas disse:

    Professora Elineide nos fala da necessidade do autoconhecimento, tema tão presente na filosofia grega, na filosofia indiana e em tantos preceitos religiosos, mas que ainda carece de popularização. Que a contribuição de Elineide nos ajude a aproximar a temática e as diversas práticas do autoconhecimento da escola.

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