por Claudia Zuppini Dalcorso
09/02/2026
Todo início de ano letivo carrega expectativas, urgências e promessas. Há o desejo legítimo de reorganizar rotinas, alinhar equipes e responder às múltiplas demandas que atravessam escolas e redes de ensino. No entanto, mais do que “começar bem”, o início do ano nos convoca a ler o contexto com profundidade, reconhecendo que ele é atravessado por desigualdades históricas, entre elas, as desigualdades raciais, que impactam diretamente o acesso, a permanência e a aprendizagem dos/as estudantes.
O contexto educacional brasileiro segue marcado por desafios conhecidos: defasagens de aprendizagem, pressões por resultados, sobrecarga das equipes e fragilidades no acompanhamento pedagógico. Soma-se a isso um cenário social ainda mais complexo, com eventos climáticos extremos, transformações tecnológicas aceleradas, como a incorporação da inteligência artificial na educação básica, e os efeitos persistentes da pandemia. Esses fatores não afetam todos/as da mesma forma. Eles incidem de maneira desigual sobre estudantes negros/as, indígenas e de territórios mais vulnerabilizados.
Diante desse cenário, a pergunta central para gestores/as, professores/as e equipes técnicas não deveria ser apenas “o que vamos fazer este ano?”, mas sobretudo: a partir de que leitura da realidade, e de que desigualdades, estamos decidindo?
Ler o contexto não se resume a levantar dados ou preencher diagnósticos de forma burocrática. Trata-se de articular dados, escutas e observações qualificadas, considerando que a escola é atravessada por relações sociais, raciais e territoriais. Uma leitura de contexto comprometida com a equidade racial implica analisar dados com recorte de raça/cor, escutar as experiências vividas por estudantes e professores/as, observar práticas pedagógicas à luz da legislação vigente e reconhecer como o racismo estrutural se manifesta nas rotinas escolares, ainda que de forma não intencional.
Inspirar, nesse contexto, é assumir a equidade racial como critério de decisão pedagógica e de gestão. Tratar todos/as da mesma forma, em contextos desiguais, aprofunda injustiças. Inspirar é sustentar escolhas conscientes, orientadas por dados, diálogo e compromisso ético.
Uma leitura de contexto consistente precisa se traduzir em instrumentos simples, coerentes e úteis para o cotidiano das escolas e das redes. Matrizes de priorização, planos de ação com foco, roteiros de acompanhamento pedagógico e devolutivas formativas são exemplos de instrumentos que ajudam a transformar princípios em prática.
O início do ano é um marco importante, mas a transformação acontece no percurso: na capacidade de revisar rotas, aprender com os dados, sustentar processos formativos e enfrentar desigualdades estruturais. Ler o contexto, com atenção às desigualdades raciais, é um ato pedagógico e ético. É a partir dessa leitura que se constroem decisões mais justas, coerentes e capazes de produzir avanços reais na aprendizagem.
Ler o contexto com atenção às desigualdades raciais exige mais do que intenção. Exige instrumentos que orientem escolhas pedagógicas e de gestão ao longo do ano. A seguir, alguns caminhos possíveis para apoiar esse movimento nas escolas e redes de ensino:
Organizar e analisar dados de aprendizagem, fluxo, frequência e participação desagregados por raça/cor, buscando identificar padrões persistentes de desigualdade. Mais do que comparar resultados, trata-se de compreender quem está aprendendo menos, em quais etapas e sob quais condições.
Utilizar uma matriz simples que ajude a cruzar:
Esse instrumento apoia equipes a evitar ações genéricas e a direcionar esforços onde a desigualdade é maior.
Nos planos de ação, explicitar estratégias voltadas a estudantes e turmas que historicamente têm menos oportunidades de aprendizagem. Diferenciação pedagógica, nesse contexto, não é privilégio é resposta ética à desigualdade.
Incluir nos roteiros de observação e acompanhamento questões como:
Essas perguntas ajudam a tornar visíveis práticas que, muitas vezes, passam despercebidas.
As devolutivas a professores/as e equipes devem ir além do cumprimento de conteúdos, incentivando a reflexão sobre práticas pedagógicas, expectativas, interações e oportunidades de aprendizagem, sempre em uma perspectiva formativa e não punitiva.
Sustentar a equidade racial como pauta permanente da formação de professores/as, gestores/as e equipes técnicas, articulando legislação, dados da própria rede e práticas pedagógicas concretas.
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BENTO, Cida. O pacto da branquitude: reflexões sobre o racismo no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, 10 jan. 2003.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Brasília, 11 mar. 2008.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
HATTIE, John. Aprendizagem visível para professores. Porto Alegre: Penso, 2017.
PLACCO, Vera Maria; SOUZA, Vera Lúcia Trevisan. Aprendizagem do adulto professor. São Paulo: Loyola, 2006.
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