por Silvana Tamassia
25/05/2026
A divulgação recente dos resultados do Enade 2025 recoloca no centro do debate uma questão que a educação brasileira já tem discutido há anos, mas que ainda enfrenta com pouca efetividade: a qualidade da formação inicial dos/as futuros/as professores/as.
O Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade), integra o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) e tem como objetivo aferir o desempenho de estudantes concluintes em relação aos conteúdos, competências e habilidades previstos nas diretrizes curriculares dos cursos. A partir de 2025, o Inep passou a aplicar o Enade em diferentes modalidades, buscando adequar a avaliação às especificidades de cada área de formação.
O exame não avalia apenas o conhecimento técnico do curso. Ele também considera aspectos de formação geral, como a capacidade de compreender temas éticos, sociais e profissionais. Além disso, o Enade é componente curricular obrigatório dos cursos de graduação, conforme previsto na Lei nº 10.861/2004, que instituiu o Sinaes. Isso significa que o/a estudante selecionado/a precisa estar em situação regular para colar grau. E esse já é o primeiro sinal de alerta. Considerando apenas o recorte da Pedagogia entre as demais licenciaturas, das 144.828 pessoas inscritas, apenas 100.722 compareceram à prova, ou seja, menos de 70% poderão colar grau e concluírem o curso.
Para as instituições de ensino superior, os resultados também têm grande peso. O desempenho dos/as estudantes no Enade compõe indicadores de qualidade, como o Conceito Preliminar de Curso, CPC, e o Índice Geral de Cursos, IGC, utilizados pelo MEC para acompanhar a qualidade dos cursos e das instituições.
E é aí que surgem as evidências do nosso segundo problema: a qualidade dos cursos e instituições que foram avaliados. Dos 1.200 cursos de Pedagogia avaliados, 151 receberam nota 1 e 248 receberam nota 2. Ao todo, 399 cursos ficaram nas duas faixas mais baixas do Enade. Isso significa que um terço dos cursos avaliados apresenta desempenho insuficiente ou abaixo do esperado. Para uma área responsável pela formação de profissionais que atuarão na base do sistema educacional, esse resultado é preocupante.
Com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) em 1996, que determinou que a formação de professores/as deveria ocorrer em nível superior (Pedagogia), o curso de Magistério (nível médio) praticamente deixou de existir no Brasil. O que significa que a formação dos/as profissionais que atuam com a educação infantil e com os anos iniciais do Ensino Fundamental, realizada quase que, exclusivamente, pelos cursos de Pedagogia, está formando professores/as com qualidade cada vez menor.
O curso de Pedagogia é o maior em volume de estudantes entre as licenciaturas e forma profissionais que atuarão diretamente na alfabetização das crianças, agenda que tem sido priorizada recentemente, devido aos baixos resultados nos últimos anos. Ou seja, trata-se de uma formação que incide sobre a base do percurso escolar de milhões de crianças e que tem sido negligenciada pelas políticas públicas.
Um novo debate tem sido trazido para esta discussão, a partir de organizações do terceiro setor que tem defendido a bandeira da qualidade da formação dos/as professores/as no Brasil, sobre o número de professores/as formados em cursos a distância (EaD). Segundo os dados consolidados no levantamento analisado, do total de pessoas concluintes inscritas só em Pedagogia no Enade 2025, 79,89% estavam matriculados em cursos a distância. Em números absolutos, isso significa aproximadamente 115 mil estudantes no EaD, contra cerca de 29 mil no ensino presencial. A proporção é expressiva: para cada estudante de Pedagogia formado/a presencialmente, há quatro em formação remota.
O ponto mais sensível aparece quando observamos o chamado aprendizado adequado, entendido aqui como o percentual de participantes que estariam preparados para iniciar suas atividades profissionais. A distância entre as modalidades é grande e indica que o modelo presencial, ao menos nos dados analisados, ainda oferece condições mais consistentes para a aprendizagem dos conteúdos esperados.
Quando se considera a eficiência sobre o total de inscritos/as, incluindo absenteísmo e baixo desempenho, temos os resultados a seguir:

Fonte: Enade 2025
Em outras palavras, de cada 10 estudantes inscritos/as em Pedagogia a distância, apenas 3 concluíram o ciclo avaliativo demonstrando domínio satisfatório dos conteúdos avaliados.
É evidente que a modalidade EaD ampliou oportunidades para estudantes que vivem longe dos grandes centros, trabalham em horários pouco flexíveis ou não teriam condições de frequentar uma instituição presencial. Esse dado precisa ser reconhecido. Mas a expansão do EaD na formação docente não pode ser analisada apenas pelo critério do acesso. Quando quase 8 em cada 10 novos/as pedagogos/as estão sendo formados/as a distância, o que precisamos nos perguntar é que condições pedagógicas, práticas e formativas estão sendo garantidas para que essa formação tenha a qualidade esperada?
É claro que a modalidade não é, por si só, sinônimo de baixa qualidade. Há cursos bem estruturados, com bons ambientes virtuais, tutoria qualificada, acompanhamento sistemático, práticas presenciais bem-organizadas e articulação com escolas de Educação Básica. O problema está na escala, na regulação e na dificuldade de garantir experiências formativas qualificadas em uma área que exige contato com crianças, observação de práticas, estágio acompanhado, reflexão sobre situações reais de sala de aula e construção progressiva da identidade docente.
Uma formação com qualidade não se limita ao estudo de textos, videoaulas e avaliações on-line. Formar um/a professor/a para alfabetizar, planejar intervenções adequadas ao nível de aprendizagem de cada estudante, acompanhar diferentes ritmos de aprendizagem, organizar a rotina da sala, dialogar com famílias e compreender o desenvolvimento infantil exige uma combinação entre teoria, prática, supervisão e reflexão. Quando essa combinação deixa de acontecer, o impacto aparece no trabalho cotidiano dos/as professores/as e, principalmente, na aprendizagem das crianças que estamos observando nos últimos anos no Brasil.
Mas o debate precisa sair da simples oposição entre presencial e EaD. É importante sim, ter um mínimo de tempo presencial para qualificar essa formação. Mas a questão mais importante é definir quais condições mínimas devem existir para formar bem um/a pedagogo/a. Isso envolve carga horária real de estudos, estágios acompanhados com intencionalidade formativa, tutoria ativa, professores/as formadores/as qualificados/as, avaliação rigorosa, vínculo com escolas de Educação Básica e acompanhamento próximo das práticas desenvolvidas pelos/as estudantes.
Também é preciso fortalecer o uso dos dados pelas próprias instituições. O Enade não deve ser tratado apenas como uma obrigação regulatória ou como uma nota que afeta a imagem institucional. Ele pode ajudar coordenadores/as de curso, docentes e equipes acadêmicas a identificarem lacunas formativas, revisarem matrizes curriculares e planejarem intervenções mais consistentes. Quando um curso forma professores/as, a baixa proficiência de seus/suas concluintes não é um problema interno da instituição apenas. É um sinal de risco para toda a rede educacional que receberá esses/as profissionais.
A Pedagogia ocupa um lugar estratégico na educação brasileira. É nesse curso que se formam muitos/as dos/as profissionais que estarão ao lado das nossas crianças nos primeiros anos de escolarização, quando se constroem as bases da leitura, da escrita, do pensamento matemático, entre outros aspectos importantes para uma formação integral. Uma formação inicial frágil tende a gerar mais insegurança profissional, maior dependência de materiais prontos e únicos para a sala toda e menor capacidade de tomar decisões pedagógicas ajustadas às necessidades reais dos/as estudantes.
Os resultados do Enade 2025 demonstram que o Brasil precisa olhar com seriedade para a formação inicial docente, especialmente em Pedagogia. A expansão do acesso foi importante, mas não basta ampliar vagas se não houver garantia de qualidade. O desafio é assegurar que cada futuro/a professor/a, independentemente da modalidade em que estuda, tenha uma formação que combine conhecimento teórico, prática acompanhada, reflexão crítica e compromisso com a aprendizagem das crianças.

Referências
BRASIL. Lei nº 10.861, de 14 de abril de 2004. Institui o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior – SINAES e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, [2004]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/lei/l10.861.htm. Acesso em: 22 mai. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Indicadores de Qualidade da Educação Superior 2025. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicadores-educacionais/indicadores-de-qualidade-da-educacao-superior/2025. Acesso em: 22 mai. 2026.
INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Divulgados os resultados do IDD, CPC e IGC. Brasília, DF: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/indicadores-de-qualidade-da-educacao-superior/divulgados-os-resultados-do-idd-cpc-e-igc. Acesso em: 22 mai. 2026.
Comente qual sua opinião sobre esse texto!