Desafios da maternidade e carreira

por Adriana Rieger

09/03/2021

 Ao longo da história, a imagem da mulher, antes frágil e carente de proteção, que tinha como atribuição os afazeres domésticos e os cuidados com o marido e os filhos, ganhou outros contornos que mudaram não só o papel feminino, mas também como se entende o que é ser mulher.

À guisa de um conceito sobre maternidade, promessas de felicidade e realização derivadas do sentimento materno fizeram mulheres crer que o lar era o lugar autêntico e verdadeiro no qual elas deveriam permanecer. Desde a mais tenra infância, nós mulheres, já éramos educadas para a maternidade, sendo a boneca o nosso principal brinquedo a fim de ensaiarmos para os cuidados maternos no futuro.

Durante muito tempo, acreditou-se que maternidade e mercado de trabalho eram lugares antagônicos. Tal concepção pode ter sido fruto de uma compreensão de que a saúde e a sobrevivência dos filhos eram encargos que não poderiam ser delegados a outros, senão à mãe. Essa concepção gerava nas mulheres a responsabilidade de cuidar de seus filhos em todos os aspectos.

Foram vários os movimentos sociais que levaram ao questionamento em nossa sociedade capitalista e machista sobre as relações de gênero e as oportunidades de trabalho para homens e mulheres. É inegável que as mulheres se tornaram uma força política importante na medida em que o que mudou não foi apenas a natureza de suas atividades, mas também os papéis desempenhados por elas ou as expectativas convencionais do que deveriam ser esses papéis.

No contexto de um mundo que se reinventa, a entrada das mulheres no mercado de trabalho trouxe outras nuances que apresentam os sinais de mudanças significativas e até mesmo revolucionárias, nas expectativas das mulheres sobre elas mesmas e nas expectativas do mundo sobre o lugar delas na sociedade.

As novas configurações familiares e a reorganização dos papéis sociais por parte do homem e da mulher, atingiu diretamente o papel de mãe e de pai dentro do contexto familiar provocando modificações nas concepções de maternidade. Pesquisas, como de Scavone (2001), aponta para a necessidade de uma revisão sociológica a respeito das mudanças mais marcantes da maternidade contemporânea. Com a consolidação da mulher no mercado de trabalho, outras características relacionadas à maternidade emergem, como uma diminuição na natalidade, maternidade mais tardia, adoção, inseminação artificial e família homoparental. Neste sentido, a maternidade precisa ser entendida pela articulação entre o desejo e seu contexto sócio-histórico não havendo uma linearidade no que irá acontecer na vida da mulher, ou seja, não há uma linha do tempo para primeiro dedicar-se à carreira e depois ser mãe ou vice versa, pois sua história está entrecruzada com questões de gênero, sociais e a história individual.

A partir daí, foi-se o tempo em que ser mãe era motivo para uma mulher desistir de sua carreira. O valor relativo à atividade profissional das mulheres passou por uma transformação importante, pois o trabalho tornou-se parte do processo identitário feminino. A mão de obra feminina está permeada em todos os setores. São raros, atualmente os segmentos exclusivamente masculinos. Elas estão cada vez mais conquistando posições. No entanto, ainda falta muito para alcançarem uma posição de igualdade em relação aos homens.

Embora as mulheres compartilhem postos de trabalho com os homens, as tarefas domésticas e familiares continuam sendo prioritariamente femininas na maior parte dos casos. Apesar do trabalho feminino ter conquistado uma legitimidade social irreversível, verificam-se ainda hoje, resquícios de uma divisão de papéis entre homens e mulheres. As mulheres ainda sofrem com a sobrecarga vivida por terem que conciliar as demandas de trabalho e da vida familiar. Equilibrar-se nos papéis de mãe e profissional é um dos principais desafios da mulher na atualidade.

Muito se fala sobre as diferenças em relação à posição de homens e mulheres no mercado de trabalho, porém é importante observar que pesquisas apontam também para diferenças entre mulheres com filhos e mulheres sem filhos em relação às oportunidades de trabalho.

Um estudo da Revista CRESCER, feito pelo Departamento de pesquisa da Editora Globo, em 2019, com 2887 mulheres, aponta que 94% das mulheres entrevistadas sentem dificuldades para conciliar maternidade e carreira por conta dos obstáculos e preconceitos, embora demonstrem estar mais seguras de seu valor no mercado de trabalho e sentirem-se menos culpadas do que no passado.

De acordo com o estudo, a chance de uma mulher sem filhos ser contratada é 80% maior do que a de outra com filhos e com currículo semelhante. Funcionárias com filhos, em média ganham menos do que suas colegas sem filhos de mesmo nível hierárquico.

Se os dados econômicos revelam uma situação desconfortável para a mãe que trabalha, é no dia a dia que as dificuldades se acentuam para equilibrar carreira e maternidade, de acordo com a estrutura doméstica e profissional, com a flexibilidade de cada profissão e com a cobrança social e pessoal que cada mulher trabalhadora que é mãe tem para equacionar.

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Referências:

94% das mulheres sentem dificuldades para conciliar maternidade e carreira. Revista CRESCER, 2019. Disponível em:< https://revistacrescer.globo.com/Familia/Maes-e-Trabalho/noticia/2019/12/94-das-mulheres-sentem-dificuldades-para-conciliar-maternidade-e-carreira.html>. Acesso em: 06/03/2021.

SCAVONE, Lucila. Maternidade: transformações na família e nas relações de gênero. Revista Interface: comunicação, saúde e educação, 2001. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/icse/v5n8/04.pdf> Acesso em 07/03/2021.

TAGMA, Greyce Rocha Beltrame e DONELLI, Marina Scheineider. Maternidade e carreira: desafios frente à conciliação de papéis. Revista Aletheia, 38-39, p. 206-217, maio/dez.2012. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/pdf/aletheia/n38-39/n38-39a17.pdf >Acesso em: 07/03/2021.

 

 

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