Repensando as estratégias de ensino para a recomposição da aprendizagem dos/as estudantes.

por Adriana Rieger

14/06/2022

Recentemente retomei uma das leituras que fiz em meados dos anos 2000, do livro Aprender…sim, mas como?, de Philippe Meirieu, mais especificamente a leitura do capítulo dois que trata sobre o que é aprender e da necessidade do movimento permanente de elucidarmos e retificarmos nossas representações dominantes sobre o que é aprendizagem.

Meirieu é um pesquisador interessado pela Ciência da Educação e pela Pedagogia, que considera os processos de ensino e de aprendizagem elementos intrinsicamente relacionados e por isso o/a professor/a precisa assumir o conhecimento como instrumento de trabalho, isto é, dominar os conteúdos e as ações metodológicas para torná-los acessíveis aos/às estudantes. Nesta perspectiva, suas obras vão ao encontro dos movimentos sociais que defendem, entre outras pautas, a escola como espaço-tempo de todos/as, o reconhecimento da diversidade e da diferença como condição intrínseca ao desenvolvimento humano e o Estado como entidade responsável por reorganizar os espaços sociais e escolares para que todos/as os/as estudantes tenham garantido o direito à educação de qualidade e os/as professores/as tenham acesso à oportunidades de formação inicial e continuada.

Dessa forma, ele nos instiga a pensar que a docência não é uma tarefa fácil, porém, um compromisso ético com a formação humana.

Este é um tema imprescindível frente os desafios acentuados pela pandemia do Coronavírus e da adoção do ensino remoto emergencial diante da necessidade de isolamento social. É fato que a pandemia só intensificou fragilidades históricas dos sistemas educacionais no que diz respeito à garantia de aprendizagem de todos/as os/as estudantes.

Especialmente em tempos de discussão sobre a necessidade de estratégias para a recomposição das aprendizagens é preciso nos debruçarmos sobre as representações dominantes de aprendizagem e o papel da escola. Qual ou quais são as nossas representações de aprendizagem e o papel da escola?

Imagino que neste momento você deva ter se remetido a alguns fragmentos de memória que recuperaram o sabor de sua história pessoal e que eles se prolongaram até alguma experiência ou lhe remeteram a velhas questões que veem preenchendo um espaço vazio no grande quebra-cabeça: não é na escola que se concretizam as aprendizagens fundamentais, as que condicionam e impulsionam todas as outras, como a leitura, a escrita e os cálculos? Não é na escola que acessamos aos referenciais culturais indispensáveis que permitem o enraizamento em uma história e, ao mesmo tempo, a abertura a outras culturas e outras civilizações?

Estas são apenas algumas das representações mais recorrentes em nossa sociedade e que nos aprisionam a alguns modelos didáticos. No entanto, é necessária uma análise sistemática e aprofundada sobre o ato de ensinar e aprender.

Sabemos que se pode aprender sempre e em todo tempo e lugar e que não há como limitar esta atividade apenas aos locais que lhe são atribuídos formalmente, como a sala de aula, por exemplo.

Partindo desta premissa, a escola precisa reconhecer que todos/as os/as estudantes percorrem itinerários diferenciados de aprendizagem e que todos/as precisam ter este direito assegurado.

Nós, professores/as, bem sabemos que ela, a aprendizagem, encontra searas bem mais atrativas em outras paragens, por vezes, bem distantes da escola. No entanto, neste momento de retorno às aulas presenciais, apesar das várias dificuldades que a escola enfrenta, sua função específica se destaca, bem como o papel do/a professor/a e sua identidade profissional.

A escola tem a dupla responsabilidade de fornecer a todos um núcleo sólido de conhecimentos reorganizados em torno de noções-chave ou habilidades essenciais, e de formar os sujeitos para comportamentos intelectuais estabilizados para que possa aplicá-los ao longo da vida.

Para Meirieu (1998), aprender significa relacionar-se com o conhecimento e principalmente apropriar-se dele, a partir de novas interações e ressignificações que os sujeitos fazem. Sendo assim, a didática, entendida como um conjunto de procedimentos de ensino e de trabalho, pode ser uma grande aliada à prática docente em seu processo de reinvenção no que diz respeito à relação estreita entre o que se quer ensinar e as formas de aprender.

 

 

O ofício de ensinar exige o respeito aos aprendentes, às suas possibilidades, necessidades, interesses e seus desejos, e o respeito aos saberes que devem ser incansavelmente percorridos, inventariados para redescobrir novas abordagens, novas riquezas, novas maneiras de apresentação. Uma tarefa bastante complexa, pois impõe um distanciamento de seu próprio repertório e de suas representações de aprendizagem, além de um questionamento permanente dos saberes e dos processos para a construção dos conhecimentos.

Vale lembrar que a recomposição de aprendizagem consiste em reconstituir fundamentos essenciais para a continuidade da trajetória dos/as estudantes, e que para cuidar da recomposição das aprendizagens não podemos fechar os olhos para a necessidade premente do acompanhamento pedagógico e da formação continuada dos/as docentes.

Esse processo implica a ressignificação de conceitos estabelecidos em tempo e espaços distintos aos atuais, afinal vivemos um marco histórico que nos impulsiona a pensar e agir fora “da nossa caixa pessoal” e das nossas certezas. Implementar e desenvolver a recomposição de aprendizagem é uma prática que surge para inovar o cenário frágil do ensino e do aprendizado e nos força a agir realmente pelo/a outro/a e para o/a outro/a na medida em que nos despimos das nossas verdades e nos abrimos para o genuíno preceito do coletivo por meio da empatia e da responsabilidade social.

Só poderemos trabalhar a recomposição da aprendizagem quando de fato estivermos abertos/as ao novo, em prol de um alcance para além de onde nossos olhos podem ver: não há como ensinar sem antes aprender a olhar por novas lentes e viver o caminho proposto para o/a outro/a.

Em que medida você está disponível para essa ressignificação dos saberes e práticas?

 

 

MERIEU, P. Aprender… sim, mas como. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

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