Racismo Consciência negra

Com que língua eu vou?

por Janaina Sousa

26/11/2021

Há um texto de Pedro Bandeira chamado “A melhor e a pior comida do mundo” que fala sobre a língua. Veja os trechos abaixo:

 

O que há de melhor do que a língua, senhor? A língua é que nos une a todos, quando falamos. Sem a língua não poderíamos nos entender. A língua é a chave das ciências, o órgão da verdade e da razão. Graças à língua é que se constroem as cidades, graças à língua podemos dizer o nosso amor…

 

A língua, senhor, é o que há de pior no mundo. É a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos, a mãe de todas as discussões. É a língua que separa a humanidade, que divide os povos. É a língua que usam os maus políticos quando querem nos enganar com suas falsas promessas…

 

Recomendo a leitura completa do texto, mas os trechos acima nos mostram que precisamos ter muito cuidado com a nossa língua, pois nossas palavras podem construir ou destruir, podem nos fazer avançar em relação a algumas situações, mas também podem ser o motivo de retrocessos.

 

Você costuma analisar as palavras e expressões que utiliza em seu cotidiano? Sabe que muitas delas podem reforçar o racismo presente em nossa sociedade?

Muitas vezes repetimos essas palavras e expressões por força do hábito, sem analisar o que elas podem revelar, mas como já dizia Sócrates: “O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância”, então, é preciso reconhecer que ainda cometemos muitos equívocos, mas que podemos começar a nos policiar e ter atitudes antirracistas, começando pelo uso do nosso vocabulário.

 

Palavras

 

Alguma vez você já disse ou ouviu alguém dizer “a coisa tá preta”, “vou te colocar na minha lista negra”, “essa atitude pode denegrir (tornar negra) a sua imagem” ou “humor negro”?  Pode parecer que são só expressões, mas é preciso analisar o que está implícito por trás destas falas. Por que o preto sempre precisa estar associado ao que é negativo, pejorativo ou desagradável? Que tal, ao invés de usar essas expressões começar a dizer “a coisa está difícil”, “vou te colocar numa lista negativa”, “essa atitude pode prejudicar a sua imagem” ou “humor de mau gosto”?

 

Quando uma pessoa é questionada ou acusada de ser racista é comum ouvirmos “Eu não sou racista, tenho até amigos negros”. Percebe como esse ATÉ traz uma ideia de estranheza, de estar fazendo algo além do que era esperado?

 

Outra expressão que certamente já deve ter ouvido é “da cor do pecado”. O que a princípio pode parecer um elogio, principalmente às mulheres negras, é na verdade uma forma de associá-las a um imaginário de mulher sensualizada, sem contar que, pecado, na nossa sociedade também é associado a algo proibido, contra a moral.

 

Também já ouvi expressões como “ela é bonita porque é uma negra de traços finos” ou “ele é um negro de alma branca”. Por que será que para ser bom ou bonito/a o/a negro/a precisa ser associado/a à características brancas?

 

Conversar palavras racismo

 

A própria palavra escravo/a denota uma ação passiva, pode dar a ideia de que os/as negros/as vindos/as para o Brasil (e outras partes do mundo) já eram escravos/as em seu país de origem ou que aceitaram essa condição, o que não é verdadeiro. Os/as negros/as que aqui chegaram eram pastores/as, camponeses/as e até reis e rainhas, então o correto é dizer que foram pessoas escravizadas.

 

Se você está lendo esse texto e se surpreendendo ou se perguntando “como não pensei nisso antes?”, saiba que estamos no mesmo barco. O fato de eu ser negra não me dá o status de profunda conhecedora dos termos que podem ser considerados pejorativos e isso acontece por um simples fato: eu e todos/as ou outros/as negros/as brasileiros/as vivemos na mesma sociedade, estruturada sobre bases racistas e com fortes resquícios de um passado do qual não devemos nos orgulhar, conforme Mateus Buzzo nos alertou em seu texto do nosso blog na última semana (que você pode ler em Da lei áurea ao racismo estrutural).

 

Um capítulo à parte nessa reflexão sobre vocabulário são os termos utilizados para designar o cabelo de origem afro: cabelo ruim, cabelo duro, cabelo de bombril, ou seja, termos que visam ridicularizar características que deveriam apenas serem normais entre tantas diferenças físicas que nos constituem enquanto humanos. Use apenas cabelo ondulado, cabelo cacheado ou cabelo crespo.

 

Enquanto professora, em várias situações ouvi as crianças dizerem “vou pintar com cor de pele” ou “me empresta um lápis cor de pele” e quando eu questionava qual era esse lápis, geralmente apontavam um rosa ou bege clarinho, então eu, enquanto professora negra, colocava o lápis ao lado do meu braço e perguntava “tem certeza de que este lápis é cor de pele?”. Como devem imaginar, ouvi as mais variadas respostas como “é quase”, “bem, agora me confundi” ou “não, acho que é o marrom”, mas o importante é salientar o processo reflexivo que isso desencadeava mesmo entre crianças muito pequenas e acredito que seja esse o nosso papel enquanto profissionais da educação e sociedade de uma forma geral: desconstruir, fazer pensar, apresentar outras possibilidades.

 

Trouxe algumas palavras e termos para iniciar a discussão, mas há muitos outros que você pode pesquisar (nos links que deixo abaixo e em outras fontes), apresentar à toda comunidade escolar e promover momentos de reflexão. Lembre-se:

 

“Negar e silenciar é confirmar o racismo”

Roger Machado

 

Para saber mais:

África e africanidades

Cartilha antirracista

Escravo, não. Escravizado!

Expressões racistas

Vamos repensar nosso vocabulário?

Dicionário de expressões (anti)racistas

 

Janaina Sousa

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Comentários sobre o texto

  1. Maria Marineide Saraiva Alves disse:

    Ainda temos que mudar muito em relação a essa questão do racismo, atualmente vem se discutindo bastante sobre esse assunto, e esse é o caminho para que realmente seja bem esclarecido e que todos entendam que somos todos iguais, cada um com sua cor e sua beleza natural.

    1. Janaina Sousa disse:

      Olá Maria Marineide!

      É isso mesmo, não podemos mais fingir que o problema não existe. Conto com você para que possamos ampliar essa discussão em nossas escolas e assim ter uma sociedade mais justa e igualitária no futuro.

  2. Eliana M disse:

    Parabéns por trazer a linguagem que retrata o racismo. É importante que essas expressões sejam discutidas com toda comunidade escolar.

    1. Janaina Sousa disse:

      Obrigada, Eliana.

      Muitas vezes vamos apenas reproduzindo algo que já ouvimos um dia, então, de fato, é importante esclarecer o significado de alguns termos para que possamos ter consciência do seu uso.
      Que bom ter você para contribuir com essas discussão!

  3. Lucimar Marte Ferreira disse:

    Adorei esse curso

  4. Lucimar Marte Ferreira disse:

    Maraviloso nova experiência

    1. Janaina Sousa disse:

      Que bom, Lucimar!

      Conte sempre conosco,

      Grande abraço

  5. Eliane Mimesse disse:

    Ótima reflexão, os termos estão inculcados na língua e na prática cotidiana. Penso que a mudança e conscientização sobre essa questão na sociedade seja lenta, devemos agir em várias frentes, com crianças e jovens, para quando crescerem sejam adultos cidadãos.

    1. Janaina Sousa disse:

      É isso mesmo, Eliane!

      A mudança não acontece da noite para o dia, mas se cada um de nós (principalmente os educadores) for fazendo a sua parte para mudar hábitos e promover as discussões necessárias, com certeza a mudança virá.

      Obrigada por estar conosco nessa jornada!

  6. Maria Marineide Saraiva Alves disse:

    A comunicação ( a língua) tanto pode ser utilizada para fins construtivos como para destrutivos, nesse sentido deve-se tomar bastante cautela ao utilizar a linguagem. Atualmente estamos em processo de aprendizagem e reconstrução dos nossos conhecimentos e preconceitos enraizados na nossa cultura/sociedade, e tais expressões de cunho racistas podem ser modificadas quando se reconhece a essência da frase.

    1. Janaina Sousa disse:

      Sim, Marineide.
      Que possamos fazer o melhor uso da língua para construir novos significados, derrubar preconceitos e crescer a cada dia enquanto sociedade.
      Obrigada por acompanhar e contribuir com o nosso trabalho.

  7. Janaina Sousa disse:

    Olá Maria Marineide!

    É isso mesmo, não podemos mais fingir que o problema não existe. Conto com você para que possamos ampliar essa discussão em nossas escolas e assim ter uma sociedade mais justa e igualitária no futuro.

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