Dislexia: um transtorno específico de aprendizagem

por Karen Kaufmann Sacchetto

11/04/2022

A dislexia, ou mais especificamente dislexia do desenvolvimento, é um distúrbio de aprendizagem específico, de origem neurobiológica, em que sua principal característica está no déficit persistente do reconhecimento de palavras. Na leitura, o desempenho fica muito abaixo das expectativas. As dificuldades na escrita, como por exemplo, na ortografia, reduzido vocabulário, problemas na compreensão de textos e, por vezes, nos cálculos, são consequências secundárias que também podem estar presentes. Cabe ressaltar que, este distúrbio de aprendizagem, ocorre em um cenário em que o/a estudante teve uma instrução educacional adequada, além de possuir as habilidades intelectual e sensorial preservadas (PETERSON & PENNINGTON, 2012). Sendo assim, mesmo com a inteligência íntegra e, muitas vezes acima da média, a pessoa disléxica não consegue ler com acuidade e fluência.

 

A maior parte das pesquisas sobre dislexia do desenvolvimento tem seu foco voltado à infância, especialmente às crianças que estão nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.  Contudo, já na Educação Infantil é possível identificar alguns comportamentos de risco, como: começar a falar tardiamente, não conseguir transmitir um recado, ter dificuldades em memorizar músicas ou rimas e motoras com grandes músculos, como direcionar ou receber uma bola, ou ainda apresentar comportamentos constantemente descoordenados.

 

Já no início da alfabetização, é comum observar a confusão entre sílabas ou palavras com diferenças sutis de grafia, tais como ao; c-o; e-c; f-t; h-n; i-j; m-n; v-u; diferenças espaciais como b-d,  b-p,  n-u;  entre letras, que possuem um ponto de articulação comum e cujos sons são acusticamente próximos: d-t; j-x; c-g; m-b; m-b-p; v-f;  inversões parciais ou totais de sílabas ou palavras: me-em; sol-los; som-mos; sal-las; pal-pla; adições ou omissões de sons, sílabas ou palavras como: famoso substituído por fama; casa por casaco; pular uma linha, retroceder para a linha anterior e perder a linha ao ler; reconhecer letras isoladamente, porém sem poder organizar a palavra como um todo; escrita espelhada em casos excepcionais; ilegibilidade (CONDEMARIN & BLOMQUIST,1989). Essas características também são comuns às crianças que estão em processo de aquisição da leitura e escrita. Contudo, nas crianças disléxicas elas persistem ao longo do tempo.

 

O diagnóstico é diferencial, ou seja, deve ser realizado, por uma equipe multidisciplinar que inclui primordialmente psicopedagogo/a, fonoaudiólogo/a e psicólogo/a, podendo ser necessárias, ainda, outras opiniões como de neurologistas, oftalmologistas e otorrinolaringologistas dentre outros/as. Os/As disléxicos/as, são assim diagnosticados/as, quando as condições intelectuais são normais, ou superiores e existem inabilidades fonológicas e/ou de memória. Em outras palavras, eles/as não têm rebaixamento cognitivo, ao contrário, muitas vezes apresentam quociente de inteligência (QI) acima da média. Muitos/as personagens famosos/as, nas mais diversificadas áreas, são, ou foram, disléxicos/as, tais como: Agatha Christie, Albert Einstein, Jamie Oliver, Leonardo da Vinci, Steven Spielberg, Tom Cruise, Walt Disney, Whoopi Goldberg.

 

Essas pessoas, assim como todos/as nós, têm um perfil de aprendizagem único. Por isso é necessário diversificar as estratégias de ensino e aprendizagem. O desenho universal para aprendizagem (DUA ou UDL em inglês) é uma abordagem que sugere a necessidade de elaborar objetivos de aprendizagem a partir de estratégias múltiplas e flexíveis, propiciando a aprendizagem de todos/as os/as estudantes, não da mesma maneira, mas em igualdade de condições, ou seja, com equidade. Mas, isso é um assunto para outo artigo. Para saber mais, vejam as sugestões de bibliografia complementar.

 

A falta de conhecimento a respeito da dislexia pode intensificar situações de bullying, a baixa autoestima comumente presente na vida dessas pessoas e até a depressão, em casos extremos. Por isso, reconhecer os sinais, receber um diagnóstico precoce e possibilitar a intervenção e inclusão de todos/as esses/as estudantes é, sem dúvida, o único caminho saudável e possível. Sabemos que ainda estamos longe desse cenário, mas conhecer e pulverizar a causa já é um excelente começo!

 

 E você, conhece um/a disléxico/a? Que tal perguntar a ele/a como se sente e como ele/a aprende?

 

 

Karen

 

Referências

CONDEMARIN, Mabel; BLOMQUIST, Marlys. Dislexia – Manual de leitura corretiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

PETERSON, Robin L., & PENNINGTON, Bruce F. Developmental Dyslexia. Lancet, 379, 1997-2007, 2012.

 

Bibliografia complementar

CARVALHAIS, Lénya Sofia de Almeida; SILVA, Carlos. Consequências sociais e emocionais da dislexia de desenvolvimento: um estudo de caso. Psicol. Esc. Educ. (Impr.), Campinas, v. 11, n. 1, June 2007.

MOOJEN, Sônia; FRANÇA, Márcio. Dislexia: visão fonoaudiológica e psicopedagógica. IN: ROTTA, Newra Tellecha; OHLWEILER, Lygia; RIESGO, Rudimar dos Santos. Transtornos da Aprendizagem: Abordagem  neurobiológica e Multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2006.

NUNES, Clarisse;  MADUREIRA, Isabel. (2015) Desenho Universal para a Aprendizagem: construindo práticas pedagógicas inclusivas. Disponível em: https://repositorio.ipl.pt/bitstream/10400.21/5211/1/84-172-1-SM.pdf. Acesso em: 08 mar. 2022.

OLIVEIRA, Darlene Godoy; KAUFMANNSACCHETTO, Karen; UEKI, Karen; SILVA, Patrícia Botelho; MACEDO, Elizeu Coutinho. (2011) Análise da produção escrita de crianças com dislexia do desenvolvimento submetidas a intervenção fônica computadorizada. Disponível em: https://www.revistapsicopedagogia.com.br/detalhes/155/analise-da-producao-escrita-de-criancas-com-dislexia-do-desenvolvimento-submetidas-a-intervencao-fonica-computadorizada . Acesso em: 08 mar. 2022.

 

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