A importância de uma educação anticapacitista

por Gizele Caparroz

16/04/2024

Carol conquistou uma vaga em uma multinacional de alimentos e tem sua própria cozinha experimental! Murilo trabalha como barista em um grande restaurante de São Paulo! Rodrigo se orgulha de ter feito parte do elenco do filme Colegas (2013) e de ter encenado Down Quixote nos palcos do teatro! Guilherme e Laura são graduados em Gastronomia e atuam na área!

 

O que esses jovens têm em comum? Todos têm síndrome de Down!

 

Diante dessas histórias bem sucedidas para pessoas T21(1) costumamos ouvir comentários como: “que lindos exemplos de superação!”, “”apesar de ser portador/a de síndrome de Down(2), conquistou seu lugar ao sol ” ou “superou a deficiência” ou “venceu a deficiência”  ou “as cotas para deficientes são mesmo um privilégio” ou ainda “claro que o vestibular foi adaptado”. Essas falas, infelizmente ainda tão comuns em nosso cotidiano, revelam o capacitismo enraizado ao longo da história, ou seja, preconceitos e comportamentos discriminatórios, que são formas de exclusão e opressão instituídas na sociedade.

 

O capacitismo, termo originado do vocábulo americano ableism, diz respeito à construção social de um corpo padrão “perfeito” que é considerado “normal” e que os outros corpos, em virtude das suas particularidades, são classificados como deficientes. Nesse sentido a pessoa com deficiência intelectual e múltipla (PCD) é relacionada à incapacidade, à desqualificação, à menor valia social. Para Sassaki (2014, p. 10), “O capacitismo está focalizado nas supostas ‘capacidades das pessoas sem deficiência’ como referência para mostrar as supostas ‘limitações das pessoas com deficiência”.

 

Pode ser expresso na linguagem, como nos exemplos acima, ou ainda em atitudes intencionais ou veladas, disfarçadas de comportamentos piedosos e protetores ou ainda em supostas “brincadeiras” que ressaltam as deficiências.

 

Ao longo da história, ocorreram muitas mudanças na forma como as sociedades entendem as deficiências, transitando de situações de abandono e sacrifício (nos povos originários e na Idade Média) a modelos de caridade (asilos, lares para crianças com deficiência), a modelos médicos (a pessoa deficiente vista como um problema, alguém que tem uma doença a ser curada) e a modelos sociais (a partir da década de 1960, também são observadas as condições sociais que envolvem a não aceitação do PCD).

 

 

Hoje, no Brasil, existem algumas leis que garantem o direito da pessoa com deficiência e sua inclusão na sociedade, como é o caso da Lei nº 13.146, Lei Brasileira de Inclusão (LBI), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que contempla desde acessibilidade em estabelecimentos comerciais, como também no ambiente digital, na educação e no trabalho, além de também punir pessoas e organizações que desrespeitam e agridem as pessoas com deficiência.

 

Os fatores responsáveis pela exclusão ou pela não aceitação de pessoas com deficiência se encontram nas barreiras atitudinais, comunicacionais e até arquitetônicas existentes e muito tem sido feito para romper com essas barreiras que estruturam nossa sociedade, mas acreditamos fortemente na Educação como o principal caminho para romper com o capacitismo, seja nas instituições escolares e dentro das famílias, seja em instituições sociais que apoiam e se dedicam à autonomia de PCD.

 

Se existem Carolinas, Murilos, Rodrigos, Guilhermes e Lauras é porque organizações não governamentais (ONG) e institutos sociais como o Instituto UniDown lutam diariamente.

 

Carolina, Murilo, Rodrigo, Guilherme e Laura potencializaram sua história de inclusão social participando das ações do Instituto Unidown. Para Márcio Berti, fundador do instituto, o fato de uma pessoa com síndrome de Down precisar de maior atenção no que diz respeito a cuidados médicos e a seu desenvolvimento intelectual não determina que ela deva ser tratada de modo diferente em relação a todos/as. Observa que é frequente que pais e pessoas em geral, sem a devida informação, assumam uma atitude capacitista de superproteção e de indulgência.  É comum que pessoas T21 sejam infantilizadas ou vistas como seres frágeis e diferentes, mas “muito carinhosos/as” e muitas vezes como “inspiração” ou “exemplos de superação”.

 

Acreditando na possibilidade de inclusão, Márcio Berti idealizou e abriu a primeira escola de culinária do Brasil para pessoas com síndrome de Down, no ano de 2006. Desde então, muitos projetos foram criados: abriu a primeira cafeteria inclusiva e o Down Service Buffet – com atendentes com síndrome de Down. Em 2018, passou a oferecer, além do curso de gastronomia, mais 23 atividades e ações gratuitas para pessoas com síndrome de Down de todas as idades e criou a Vaticana Massas, uma pequena fábrica de massas que, hoje, forma chefs masseiros com síndrome de Down.

 

 

Desde a pandemia de Covid-19, o Instituto UniDown  vem se preocupando ainda mais com a saúde física e mental de seus estudantes e familiares, por meio de profissionais da Saúde especializados e de atividades de lazer e cultura, como a BalaDown – a maior balada do Brasil para pessoas com síndrome de Down e para quem quiser participar! Além disso, com a capacitação de jovens e adultos T21 em seus cursos, hoje, o Instituto UniDown é procurado por empresas de diversos setores para incluir pessoas com síndrome de Down em seus quadros de colaboradores, promovendo desde a formação dos jovens, passando pela realização do processo seletivo, acompanhamento do contratado/a até a orientação da equipe contratante.

 

Além de institutos sociais como este, a instituição escolar e a instituição familiar são espaços poderosos para se plantar a semente da inclusão e diluir o capacitismo na linguagem e nas atitudes cotidianas. As crianças podem aprender a ser anticapacitistas!

 

Sassaki (2014, p. 10) pontua que “A deficiência é apenas um dos atributos da diversidade humana. Ela não é necessariamente negativa, errada ou indesejável”.

 

Sendo assim, em uma educação que prime pela equidade e pelo respeito pelo/a outro/a, deficiente ou não, o papel dos/as docentes, pais e responsáveis é de ensinar o poder da linguagem e de comportamentos anticapacitistas, abrindo o diálogo sobre o assunto ainda na infância, sempre com naturalidade. Além disso, a representatividade de pessoas com deficiência na escola, nas mídias, nos diversos espaços sociais, nos brinquedos, filmes e também na literatura infanto-juvenil podem mostrar às crianças e adolescentes que as diferenças existem, sim, mas que nem por isso elas são indicativo de superioridade ou inferioridade.

 

Sim, as crianças podem aprender a ser anticapacitistas!

 

Notas:

  • A Síndrome de Down é uma condição genética causada pela presença de três cromossomos 21 nas células dos indivíduos, em vez de dois. Por isso, também é conhecida como Trissomia do cromossomo 21
  • A palavra “portador” traz a conotação de doença. Deve-se evitar seu emprego e substituir por pessoa com deficiência ou pessoa com síndrome de Down. Vale o mesmo para pessoa cega, pessoa surda, pessoa com nanismo.

 

Conheça mais: www.institutounidown.com.br ; @institutounidown

 

 

Referências:

BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Diário Oficial da União, Brasília, DF: Presidência da República, 2015. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015 2018/2015/lei/l13146.htm .Acesso em: 15 fev. 2024.

COLEGAS. Direção: Marcelo Galvão, Produção: Marçal Souza, São Paulo, Gatacine, 1 de março de 2013.

SASSAKI, Romeu Kazumi. Capacitismo, incapacitismo e deficientismo na contramão da inclusão. Reação: Revista Nacional de Reabilitação, São Paulo, v. 96, n. 7, p. 10-12, jan./fev. 2014. Disponível em: https://revistareacao.com.br/wp-content/uploads/2018/05/ED96.pdf. Acesso em: 10  fev. 2024.

 

Gizele C. R. Caparroz de Almeida – Mestra em Educação: Formação de Professores pela PUC/SP, na área de Leitura e Multiletramentos, é graduada em Letras e Linguística pela UNICAMP. Atuou como professora e coordenadora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental e Ensino Médio. Autora de materiais didáticos para as editoras Moderna e Santillana e para a plataforma de Aprendizagem Ativa Cloe Education. Atualmente, é professora da pós-graduação em Alfabetização e Letramento da Escola Mineira de Humanidades e atua como consultora e formadora de professores e gestores de escolas públicas e privadas, em Metodologias Ativas de ensino, Leitura Multimodal e Pedagogia de Multiletramentos, entre outros temas relacionados à Gestão de Sala de aula.

Para além da sala de aula, é voluntária do Instituto UniDown e escreve para o público infanto-juvenil.

 

 

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