por Silvana Tamassia
30/03/2026
O Indicador Criança Alfabetizada (ICA), índice nacional divulgado no último dia 23 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), apontou crescimento no percentual de crianças brasileiras alfabetizadas na idade certa. O índice nacional superou a meta escalonada prevista para este ano, fixada em 64%, e o mesmo ocorreu em 19 estados e no Distrito Federal.
O resultado tem sido comemorado por diferentes atores do campo educacional e demonstra que, quando há foco, intencionalidade e articulação entre políticas públicas, a aprendizagem tem avanços reais. O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), política implementada desde 2023 em parceria entre os entes federados que aderiram ao programa (atualmente com 100% de adesão), tem contribuído para isso ao combinar apoio técnico, definição de metas e avaliações de desempenho que permitem acompanhar avanços e orientar ações a partir dos resultados.
Por que alfabetizar na idade certa importa tanto?
Ter todas as crianças alfabetizadas na idade certa é um passo fundamental não apenas para o percurso escolar desses/as estudantes nos anos seguintes e nas diferentes áreas do conhecimento, mas também para o desenvolvimento do país.
Saber ler e escrever é uma ferramenta poderosa de apropriação do conhecimento, ampliação de repertório e participação social. Não é possível formar cidadãos e cidadãs plenos/as sem garantir o direito de aprender a ler e a escrever.
Estados que avançaram e resultados que merecem destaque
Alguns estados se destacaram de forma expressiva. Goiás, por exemplo, saltou de 73% em 2024 para 80% em 2025, e o Paraná cresceu de 70% para 80%, alcançando já neste ano a meta nacional projetada para 2030, que é de 80%. O Ceará, embora não tenha avançado entre 2024 e 2025, já se mantinha acima dessa meta, com 84%.
Também houve avanços bastante significativos em outros estados. A Bahia foi o principal destaque, com crescimento de 19 pontos percentuais, passando de 36% para 55%. Em seguida, aparecem Acre e Piauí, ambos com aumento de 17 pontos percentuais: o Acre foi de 51% para 68%, e o Piauí, de 60% para 77%. Paraíba e Alagoas também merecem menção, com crescimento de 15 pontos percentuais.
Nem todos os estados avançaram no mesmo ritmo
Embora os números gerais sejam animadores, alguns estados ainda permanecem distantes da meta nacional de 64% para 2025. Os menores desempenhos do país foram registrados no Rio Grande do Norte, com 48%, em Sergipe, com 50%, e no Rio Grande do Sul, com 52% de crianças alfabetizadas na idade certa.
Vale destacar, no entanto, que, embora exista uma meta nacional de 64% em 2025, cada estado possui também suas próprias metas intermediárias para alcançar 80% até 2030. Isso significa que o desempenho de cada rede deve ser analisado não apenas em relação ao índice nacional, mas também à sua trajetória específica.
É o caso de Sergipe, que atingiu 50% em 2025. Embora esteja abaixo da média nacional, o estado superou sua meta estadual para o ano, que era de 46%. Já o Rio Grande do Sul, com 52%, ficou bastante abaixo de sua própria meta estadual, fixada em 69%, o que evidencia a necessidade de intensificar investimentos e estratégias para promover avanços mais consistentes nos próximos anos.
Outros estados também não atingiram suas metas próprias, mas apresentaram crescimento importante. O Pará foi o que mais avançou nesse grupo, com aumento de 10 pontos percentuais, passando de 48% para 58% e ficando muito próximo de sua meta de 59%. O Rio Grande do Norte cresceu 9 pontos percentuais, saindo de 39% para 48%; o Amazonas avançou 8 pontos, de 49% para 57%; o Rio de Janeiro cresceu 5 pontos percentuais, indo de 55% para 60%; e o próprio Rio Grande do Sul subiu 7 pontos, de 45% para 52%, embora ainda permaneça distante da meta estabelecida.
A maior preocupação, porém, está em Santa Catarina, o único estado que não apresentou avanço e que, ao contrário, registrou queda nos resultados: passou de 62% em 2024 para 59% em 2025, afastando-se de sua meta estadual, que era de 67%.
No caso de São Paulo, embora o estado tenha alcançado sua meta de 61%, o crescimento foi de apenas 3 pontos percentuais em relação à última avaliação — um avanço relativamente modesto para uma rede que vem investindo de forma significativa na formação de seus/suas educadores/as nos últimos anos.
O que ainda precisa acontecer para avançarmos mais?
Diante desse cenário, três pontos merecem especial atenção para que o país continue avançando rumo à alfabetização de todas as crianças na idade certa:
Avaliar é um passo essencial para compreender o ponto de partida e o ponto de chegada a cada ano. No entanto, os avanços só se tornam consistentes quando os dados produzidos pelas avaliações se transformam em decisões pedagógicas e em apoio concreto ao trabalho docente.
Isso exige investimento contínuo na qualificação da prática pedagógica e no acompanhamento das ações desenvolvidas em sala de aula.
A formação continuada é parte central desse processo. As redes podem — e devem — ofertar percursos formativos para suas equipes, inclusive em parceria com instituições que apoiem o trabalho com metodologias inovadoras e efetivas. Mas é na escola que essa formação ganha concretude.
É no cotidiano da unidade escolar, a partir do acompanhamento do trabalho pedagógico e da observação das necessidades reais da equipe docente, que se torna possível identificar lacunas, reorganizar estratégias e fortalecer práticas de ensino mais potentes.
A partir desses insumos, os momentos de estudo coletivo e de planejamento pedagógico podem deixar de ser espaços burocráticos e passar a funcionar, de fato, como oportunidades de formação contínua voltadas à qualificação das práticas pedagógicas.
Sem condições adequadas de trabalho, não há política que se sustente
É nesse ponto que entram também as condições de trabalho. Turmas com número adequado de estudantes, tempos remunerados de planejamento e oportunidades de estudo coletivo mediados pela equipe pedagógica da escola são condições fundamentais para que o/a professor/a consiga planejar boas aulas, propor situações de aprendizagem adequadas e considerar a heterogeneidade presente em cada sala de aula, com intervenções ajustadas às necessidades de cada criança.
Nesse processo, o papel da equipe gestora, muitas vezes liderada pelo/a coordenador/a pedagógico/a, é decisivo. Se os momentos de estudo e planejamento não tiverem intencionalidade, orientação clara e pautas realmente formativas, o tempo regulamentado por lei corre o risco de se tornar pouco produtivo ou, em alguns contextos, sequer se concretizar como espaço efetivo de formação.
É esse conjunto de ações articuladas que pode garantir os avanços que ainda precisam acontecer para que a alfabetização de todas as crianças se torne uma realidade em qualquer lugar do país, independentemente do nível socioeconômico, do território e das desigualdades sociais e étnico-raciais que ainda marcam profundamente a nossa sociedade e, consequentemente, as escolas.
Precisamos, sim, comemorar os avanços. Mas precisamos também olhar para o futuro com responsabilidade, reforçando o papel estratégico de cada ente federado na garantia das condições necessárias para que esses avanços não sejam pontuais, e sim sustentáveis e cada vez mais equitativos.

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