O autoconhecimento na formação do educador – Parte 2/4

por André Lopes

15/01/2021

Clique aqui para acessar a primeira parte do texto.

Neste segundo texto sobre o “autoconhecimento na formação do educador”, parto da premissa de quem somos nós, e aprofundo alguns aspectos comuns a todos os seres humanos. O ato de se conhecer necessariamente transcorre sobre o nosso corpo, o nosso pensar, sentir e fazer, bem como sobre com que espírito encaramos a vida e a maneira que trabalhamos na escola.

Eu: Educador

O mistério de quem somos perpassa diferentes enfoques: filosófico, científico, religioso, cultural e temporal – em cada período da história as visões sobre o ser humano mudam. Mesmo que não exista uma resposta definitiva, podemos inferir algumas de nossas características e, acima de tudo, refletir sobre aquilo que  pensamos, sentimos e fazemos.

Corpo Físico

Todos temos um corpo físico que necessita de alimento, água e oxigênio para sobreviver, e de alguns cuidados, como manter o calor corporal e encontrar abrigo para o sono. Nosso corpo físico é o resultado da forma como cuidamos dele: na alimentação, nos hábitos diários, nas atividades físicas, nas doenças e acidentes. Nele carregamos todas as marcas e cicatrizes de nossa história de vida, além daquelas de nascença. Por fim, o corpo físico acaba por refletir as escolhas comportamentais e mentais que fazemos.

Como está sua saúde física?

Segundo a antroposofia, temos uma cabeça que representa o pensar, um coração que representa o sentir e membros que representam o fazer. Quando não estamos dormindo, nossa existência se expressa nestas três ações: pensar, sentir e fazer. Observarmo-nos nestes aspectos contribui para compreender quem somos.

Coração – Sentir

O sentir baseia-se nas sensações que são produzidas por nossos cinco sentidos, é a maneira pela qual o corpo reage aos estímulos exteriores. Tudo que ocorre ao nosso redor é captado pelos sentidos, que produzem em nós sensações – se essas sensações são boas ou ruins é um julgamento individual de preferência: doce ou salgado, beijo ou abraço, prazer e dor, liso ou áspero, neutro ou colorido. As sensações exercem uma enorme influência sobre nós, por vezes ficamos viciados em algumas delas com desejos infinitos por comida, bebidas alcoólicas, drogas, açúcar, atividade física, sexo, poder, consumismo, remédios etc. O desafio é encontrar um equilíbrio para não se tornar escravo da sensação.

Estou viciado em alguma sensação?

O sentir relaciona-se também com nossas emoções e sentimentos – medo, ansiedade, alegria, tristeza, saudade, angústia, inveja, culpa – que costumam ser mais duradouros e são construídos na relação com outras pessoas, simpáticas ou antipáticas. O sentimento de amor é edificado no dia a dia, o de raiva pode surgir em um desentendimento; o desafio é nos harmonizarmos com todas as pessoas com as quais nos relacionamos no cotidiano, superando os sentimentos de antipatia. A qualidade das relações interpessoais é fundamental para a saúde emocional, principalmente com as pessoas cujo convívio é mais intenso – família e colegas de trabalho. Estar ciente das emoções e dos sentimentos que temos em relação ao mundo ao nosso redor nos ajuda a lidar com eles.

Como está minha saúde emocional?

Braços e Pernas – Fazer

O fazer é a faculdade que nos permite viver a vida: enquanto estamos acordados estamos fazendo alguma coisa. Nossa sobrevivência depende do agir: precisamos nos alimentar, abrigar, esquentar e movimentar. Mas fomos muito além, fazemos carros, aviões, foguetes, vacinas, filmes, internet, músicas, saneamento básico, poesias… São tantas as possibilidades do fazer que as opções de profissão e de cursos superiores só aumentam. Por outro lado, fazemos também guerras, discursos de ódio, fake news, ações violentas, racistas, egoístas, corruptas. Nosso fazer impacta nos outros, na sociedade e no mundo, mas principalmente em nós mesmos. Há pessoas que fazem de suas vidas uma correria contra o tempo, são muitas as obrigações e os compromissos, chegando ao fim de cada dia cansadas, estressadas ou frustradas, com poucas horas de sono. Existe um senso comum de que o tempo está correndo, de que os anos têm passado mais depressa, e de que se não fizermos muitas coisas estaremos ficando para trás. Com efeito, passamos a dedicar os momentos livres às telas (celular, tablet, monitor de PC, TV, vídeo game). O tédio, a desconexão e a reflexão tornaram-se raros e angustiantes, o fazer tomou o espaço do ser, do autocuidado, da dedicação de tempo para si, que são os alicerces da saúde física e mental. Ao parar para se observar, descansamos e refletimos sobre o sentido de nossos afazeres.

Em que momento eu paro? Estou sempre com pressa do quê?

Cabeça – Pensar

O pensar é uma atividade poderosa, podemos: 1) planejar nossas ações e ser criativos, imaginativos, investigativos, curiosos, sonhadores; 2) refletir e ser hábeis na maneira de enfrentar os desafios da vida; 3) raciocinar e resolver problemas complexos; 4) sonhar e escolher maneiras de levar a vida; 5) ponderar, freando desejos, reações instintivas e violentas mesmo quando provocados; 6) negar o desejo por sensações de drogas, bebidas, alimentos e sexo mesmo quando instigados; 7) governar nossas ações para escolhas que nos fazem bem. Por fim, o pensar pode guiar nossas ações.

Porém, o pensar pode prejudicar nossa paz por meio de pensamentos repetitivos – de um trauma, uma contrariedade, uma raiva, uma dor – e nos agredir emocionalmente tirando o sono e a concentração. Livrar-se deste looping nem sempre é fácil; sofremos para conseguir tirar algo da cabeça, virar a página do ocorrido e por vezes precisamos de amparo: um ouvinte para um desabafo, para organizar nossas ideias, para ponderar conosco ou para ajudar a esquecer. Aprender a lidar com o pensar é um caminho para a paz mental.

Como está minha saúde mental? A qualidade de meus pensamentos? O pensar me guia ou me cansa?

Somos um    

O pensar, sentir e fazer se inter-relacionam em nós. O pensar serve de ferramenta para refletir sobre o sentir e o fazer, não racionalizando, mas buscando alternativas para o que estamos sentindo e para um fazer mais equilibrado e menos reativo ou instintivo. O sentir nos interpreta sem um pensar racional. O fazer proporciona experiências de prazer, que nos relaxem os pensamentos e as emoções. Para cada pessoa haverá um equilíbrio diferente, o autoconhecimento é um dos caminhos para compreender em nós como harmonizar o pensar, o fazer e o sentir a nosso favor.

Espírito – beleza, amor e alegria

Creio que a beleza, o amor e a alegria são a melhor maneira de se falar do espiritual. Com que espírito pensamos, sentimos e fazemos o nosso dia, nos relacionamos e resolvemos os problemas; com que humor terminamos o dia para dispor de um sono tranquilo. Com que frequência apreciamos o belo, sentimos amor e vivenciamos alegrias ao longo do dia. Há energia para levantar-se da cama ou uma preguiça sofrida. Viver por viver vai nos corroendo… Inspire, medite, observe a sua vida e as vidas ao seu redor, agora é a hora. Há diferentes maneiras de viver, nem melhor nem pior.

 Com que espírito eu vivo o meu dia?

Eu Educador e a Educação

Os estudantes têm seu corpo físico, o pensar, o sentir, o fazer e o espírito, mas ainda em formação. Quanto mais jovem, maior é a influência do professor, as crianças estão tendo algumas experiências pela primeira vez, elas se inspiram com modelos, a maneira que o educador reage às ocorrências do dia são captadas e reproduzidas, o que é uma oportunidade para os educadores apresentarem outras formas de sentir, pensar e fazer a respeito da vida.

A partir da experiência de auto-observação, o educador estende seu olhar para os estudantes. Observar os corpos físicos dos alunos e alunas diz muito sobre eles e elas: se estão crescendo, se têm bons hábitos alimentares, se há marcas de violência física, se estão muito doentes. O convívio diário lhe fornece informações sobre os educandos por meio de uma simples observação.

O vínculo com o educador é referência comportamental, seu pensar, sentir e fazer impacta nos alunos e alunas: o pensar sobre os educandos como incapazes ou como seres humanos em desenvolvimento influenciará a maneira como a aula é preparada e realizada. Observar-se em suas intenções no planejamento de aula e nas relações com os estudantes é fundamental para compreender o caminho percorrido e a se percorrer.

O fazer com dedicação, com paciência, atenção e afeição se distingue do fazer com descaso, desesperança, descuido e violência, e os educandos sentem esta diferença. Sem dúvida temos dias bons e dias ruins, assim como os jovens, mas, acima de tudo, com que espírito (beleza, amor e alegria) o educador leciona e encara os desafios na escola.

A construção do vínculo com os estudantes ajudará a sentir o que necessitam para amadurecerem emocionalmente, mas o educador precisa estar aberto para senti-los. A mera rotina de conteúdos e avaliações é fria. Para educar um ser humano para a vida é preciso de receptividade, escuta e afeto.

Os educadores têm a possibilidade de receber as crianças e jovens ofertando-lhes seus melhores pensar, sentir e fazer, tornando este encontro uma vivência transformadora para o desenvolvimento não só intelectual, mas emocional e espiritual de seres humanos. Observe seus pensamentos, sentimentos e ações em relação às pessoas da escola e aos educandos, perceba de que maneira uma atitude sua reverbera nos demais a sua volta. Seu corpo, pensar, sentir e fazer lhe definem na maneira de se relacionar com o mundo. Observe também com que espírito (beleza, amor e alegria) você tem vivido cada dia. Se precisar, mude.

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