Professor Educação

Autoavaliação como processo reflexivo e formativo do/a professor/a.

por Simone Cléa dos Santos Miyoshi

17/09/2021

A autoavaliação pode permitir uma autorreflexão, mesmo que ela seja uma atividade não deliberada ou intencional, ao pararmos para pensar sobre qualquer episódio, dilema ou problemática interna, individual, pessoal ou profissional que envolva nosso investimento de vida, de tempo, de conhecimento, ela invariavelmente está presente. A autoavaliação favorece a reflexão e podemos aproveitar essa dinâmica e possibilidade facilitadora para repensarmos, para voltar nosso olhar para nós mesmos. Ademais, se essa ação nos permite uma reflexão crítica sobre a forma que pensamos, sentimos, agimos e como vemos o mundo, ela pode promover também mudanças e transformações.

Em um contexto educacional é possível apresentar ou até mesmo utilizar a autoavaliação como uma ferramenta, nesse caso, deliberadamente e intencionalmente, um potente exercício crítico-reflexivo de autogestão e formação docente. O/a professor/a por meio da autoavaliação, pode debruçar-se sobre o trabalho pedagógico desenvolvido e identificar suas qualidades e potencialidades de educador/a, assim como, verificar suas lacunas e necessidades formativas.

Além disso, a ação autoavaliativa deve, sobretudo, vislumbrar o crescimento e fortalecimento dos/as professores/as, a renovação profissional e a qualidade das práticas no campo da Educação. O mundo contemporâneo muda constantemente, os sujeitos que fazem parte dele também, deste modo, as necessidades e interesses sofrem alterações e movimentos cíclicos entre o antigo e o novo. Estar atento às práticas, concepções e modos de fazer dentro do espaço escolar é fundamental para corrigir rotas e traçar novos caminhos.

A busca pela excelência e maturidade deve permear a conduta profissional dos professionais da Educação. Essa é uma máxima do campo, um caminho a ser seguindo, sobretudo, em nosso país. A autoavaliação pode ser uma boa ferramenta nesse propósito, sendo um convite para o sujeito tornar-se um/a professor/a – observador/a – pesquisador/a de si, não apenas, ou somente, dos processos educativos nos quais está imerso, mas porque essa busca e investigação pode promover a contínua aprendizagem e desenvolvimento dos processos pedagógicos e sua evolução profissional.

A cátedra, lecionar, mediar em territórios de construção de saberes exige competências e compromisso profissional, mas é preciso ter consciência das ausências, das continuidades e descontinuidades no trabalho realizado, assim como, daquilo que é realizado como referência dentro dos espaços educativos.

Tardif (2002;2005), não economizou argumentos em suas pesquisas quando analisa os saberes profissionais e a profissionalização docente. Para ele, os seis fios condutores dos saberes dos/as professores/as são permeados pelo saber e o trabalho docente. Nesse último, leia-se trabalho na sala de aula, com seus desafios, problemáticas e conflitos, adicionado a isso a diversidade e complexidade do saber, envolvido pela temporalidade e espacialidade, na qual o próprio indivíduo, professor/a em sua singularidade, está envolvido, assim como, o resultado de toda experiência de trabalho já realizado por ele mesmo, somada às competências já fundamentadas, solidificadas ou não, além da relação que estabelece com o todo envolvido, trabalho, exigências, histórico de vivências, necessidades, entre outros. E por fim, não menos importante, na necessidade de repensar sua formação, a construção dos saberes docentes e ação profissional.

Educação

Esse universo acima, tão bem explorado por Maurice Tardif, por ele denominado de fios condutores, está embricado em um emaranhado de representações e ações que se apresentam de forma ampla e nada fragmentada no cotidiano da vida escolar. Cabe, portanto, uma ação das equipes formativas fomentar a reflexão e busca por caminhos para o crescimento do grupo.

Mas, como usar de maneira propositiva a autoavaliação nos processos formativos de professores/as? A despeito de toda movimentação e escassez de tempo que cada professor vivencia em sua rotina diária, é possível fomentar pequenos momentos reflexivos, propositivos, que vislumbrem a conscientização de práticas e condutas educacionais.

Longe de querer estabelecer um modelo de tratamento do instrumento autoavaliativo, pois cada escola e grupo de professores/as apresentam uma necessidade formativa, compartilho algumas formas utilizadas, neste caso específico em uma escola privada, de médio porte, com professores/as de Ensino Fundamental II, anos finais, portanto, professores/as que atuam em diferentes áreas do conhecimento. Para tanto, alguns cuidados devem ser tomados como: o instrumento autoavaliativo deve visar, sobretudo, a autorreflexão e não deve apresentar cunho avaliativo, comparativo ou classificatório. Ele é inteiramente reflexivo, possibilitador de diálogos e abertura de novos caminhos formativos. Desse modo, esse cuidado inicial deve ser direcionado ao formador/a, coordenador/a pedagógico/a ou responsável pelo processo formativo do grupo de professores/as. O instrumento deve ser cordial e agradável, apresentando-se como um convite. Todos os atores deste processo devem estar implicados e envolvidos. Não é algo que deva ser realizado de forma vertical, mas sim, realizado democraticamente, horizontalmente.

Após o convite, estabeleça seu foco e análise, quais assuntos devem ser tratados: relação professor/a-estudante; realização do planejamento pedagógico e suas interfaces; processos metodológicos; fragilidades formativas; potencialidades; trabalho inter, transdisciplinar; processos formativos; entre outros. As questões devem ter uma abordagem discursiva que promova a liberdade de expressão, portanto, não deve ser indutiva ou literal.

Professor Educação

A premissa básica para a construção de um bom instrumento avaliativo é construir boas perguntas, que permitam uma “parada reflexiva”, ou seja, é preciso parar e pensar, assim, devem ser apresentadas questões que promovam reflexão, sem automatismos, que levem o/a profissional pensar:

“-O que vou responder? Como realmente realizo essa ação em meu cotidiano? Quais práticas já realizo? Com quais fundamentos me identifico? Quais foram minhas principais aprendizagens ao longo desse percurso (pensando nos diferentes modelos de atuação – remoto e híbrido)? Meu planejamento tem permitido que o/a estudante possa ser protagonista do processo de aprendizagem? (Apresente as situações nas quais o protagonismo é exercitado. Se não, aponte as dificuldades ou possíveis soluções).”

Perguntas acima exemplificadas não são modelares, mas podem sinalizar um caminho a ser construído. Acolha todas as respostas e todas as manifestações dos/as professores/as envolvidos, não realize uma análise prévia. Após aplicação do instrumento, agende horários com seus/suas professores/as para uma conversa que permita estabelecer pontes, conexões. Em parceria, organize as informações, construa conhecimentos e trace linhas formativas. Obviamente, tal ação não é algo simples e pode demandar uma boa gestão de tempo, mas é algo possível de ser realizado, com diferentes adequações, respeitando as diferentes realidades.

 Esse campo formativo, no qual a autoavaliação é ferramenta de formação, pode conjecturar uma boa prática formativa, sobretudo, no sentido de pensar e refletir a escola e práticas nela desenvolvidas. A autoavaliação, juntamente com a autorreflexão, pode favorecer um ambiente profissional, engajado e potencialmente voltado a soluções de problemáticas educacionais cotidianas.

Simome Cléa Educação

BIBLIOGRAFIA

SHULMAN, L. S. Those who understand: knowledge growth in teaching. Educational, v. 15, n. 2, p. 4-14, 1986.

TARDIF, M. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.

TARDIF, M.; LESSARD, C. O trabalho docente: elementos para uma teoria da docência como profissão de interações humanas. Petrópolis: Vozes, 2005.

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Comentários sobre o texto

  1. Nalva Guerra disse:

    Gostei muito do artigo, neste momento em que vivemos a correria do dia-a-dia, com as aulas híbridas e as as incertezas na educação, é muito bom desaceleramos e termos um momento para a reflexão e para o questionamento sobre nossa prática.

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