por Silvana Tamassia
12/08/2026
A divulgação dos resultados do Ideb 2025 traz uma notícia importante para a educação brasileira: pela primeira vez desde a pandemia, foi possível observar um avanço consistente em todas as etapas da Educação Básica no Brasil. Os resultados apontam crescimento tanto do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) quanto do indicador de aprendizagem do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), sinalizando que as redes de ensino vêm conseguindo recuperar parte das perdas acumuladas nos últimos anos.
Ideb 2025: motivos para comemorar
Os dados divulgados pelo MEC mostram que praticamente todas as etapas apresentaram crescimento no Ideb e também na nota padronizada do Saeb.
Embora os números não revelem tudo, eles são uma base importante para uma primeira análise e para direcionar nosso olhar considerando o que aconteceu até aqui e pensando nos próximos anos.
Um estado que se destacou foi o Paraná. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, Paraná (6,9), Ceará (6,8), Santa Catarina (6,5) e São Paulo (6,5) lideram o cenário nacional do Ideb. No Saeb, o Paraná também ocupa a primeira posição (7,0), seguido por Ceará (6,8), Santa Catarina (6,6) e Espírito Santo (6,5).
Nos anos finais, Paraná (5,8), Ceará (5,6) e Goiás (5,6) aparecem entre os melhores resultados nacionais, repetindo praticamente a mesma configuração também no Saeb.
No Ensino Médio, o Paraná permanece na liderança tanto do Ideb (5,1) quanto do Saeb (5,1), seguido por Espírito Santo (4,9), Goiás (4,9) e Piauí (4,9).
Outro aspecto positivo é que diversos estados conseguiram crescer de forma consistente entre 2023 e 2025. Nos anos iniciais destacam-se Amapá (+0,7 no Ideb), Alagoas (+0,6), Bahia (+0,6), Amazonas (+0,6) e Pernambuco (+0,5).
Nos anos finais, Minas Gerais (+0,6), Rio Grande do Sul (+0,5), Pará (+0,5) e Paraíba (+0,5) tiveram avanços importantes.
Já no Ensino Médio chama atenção o Rio Grande do Sul (+0,8), Rio Grande do Norte (+0,7) e Piauí (+0,6).
Esses resultados mostram que muitas redes conseguiram recuperar parte das aprendizagens perdidas durante a pandemia e ampliar seus indicadores educacionais após um período extremamente difícil para a educação brasileira.
Apesar das boas notícias, há alguns pontos importantes para refletirmos e para pensarmos nas políticas públicas e no uso desses dados para qualificar o trabalho das redes.
Uma análise mais aprofundada dos dados revela que ainda há desafios estruturais importantes. O primeiro deles está relacionado às diferenças de evolução entre as etapas de ensino ao longo das últimas duas décadas. O segundo diz respeito à interpretação dos próprios resultados do Ideb, especialmente quando se compara sua evolução com a evolução das aprendizagens medidas pelo Saeb.
20 anos de IDEB: a evolução da educação brasileira

O gráfico evidencia que o maior avanço ocorreu nos anos iniciais do Ensino Fundamental, enquanto o Ensino Médio apresentou crescimento significativamente menor. Em vinte anos, os anos iniciais cresceram praticamente 70%, enquanto o Ensino Médio evoluiu apenas 39%.
Essa diferença dificilmente pode ser considerada um acaso. Ela reflete prioridades assumidas pelas políticas educacionais brasileiras nas últimas duas décadas. O Brasil estruturou importantes políticas públicas voltadas para a alfabetização, formação continuada de professores/as dos anos iniciais, avaliações diagnósticas e acompanhamento sistemático das escolas. Muitos estados e municípios criaram programas permanentes de apoio pedagógico e monitoramento dos resultados, produzindo avanços bastante consistentes nessa etapa.
Já o Ensino Médio passou por importantes reformas curriculares e mudanças na arquitetura pedagógica, buscando tornar a escola mais significativa para os/as jovens. Os resultados, entretanto, indicam que essas mudanças, isoladamente, ainda não foram suficientes para produzir ganhos de aprendizagem na mesma intensidade observada nas demais etapas, apesar do crescimento entre 2023 e 2025.
Os dados sugerem que reorganizar o currículo, por si só, não é suficiente. O desafio continua sendo garantir que as mudanças curriculares sejam acompanhadas de transformações efetivas nas práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula.
Crescimento do Ideb nem sempre significa maior aprendizagem
Vale lembrar que o Ideb não mede apenas aprendizagem. O indicador resulta da combinação entre o desempenho dos/as estudantes no Saeb e o fluxo escolar (aprovação, reprovação e abandono). Por isso, é possível que um estado apresente crescimento no Ideb mesmo sem aumento da aprendizagem, desde que haja melhora nas taxas de aprovação.
Em geral, espera-se que o aumento do Ideb venha acompanhado também de aumento na aprendizagem medida pelo Saeb. Nos anos iniciais isso aconteceu de forma bastante consistente.
Praticamente todos os estados que cresceram no Ideb também apresentaram crescimento semelhante no Saeb, indicando que a melhora do indicador foi acompanhada por aprendizagem efetiva.
Entretanto, quando olhamos para os anos finais e, principalmente, no Ensino Médio, algumas situações merecem atenção e um olhar mais apurado.

Nos anos finais o caso que mais chama atenção é o do Amapá.
O estado conseguiu aumentar seu Ideb em 0,3 ponto, embora sua nota padronizada do Saeb tenha permanecido exatamente igual (4,7). Isso indica que a evolução do Ideb ocorreu exclusivamente em função da melhoria dos indicadores de fluxo escolar. Além dele, outros estados se mantiveram estagnados no Saeb, mas cresceram no Ideb, como é o caso de Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal.
No Ensino Médio o descompasso foi ainda mais evidente. O caso do Rio de Janeiro merece atenção especial. Enquanto o Ideb cresceu 0,4 ponto, a aprendizagem medida pelo Saeb apresentou pequena redução (-0,1).
O mesmo ocorre no Mato Grosso do Sul, cujo Ideb aumentou significativamente, embora o desempenho dos/as estudantes no Saeb tenha permanecido inalterado.
Já na Paraíba, apesar do Saeb ter crescido 0,1, o Ideb cresceu 0,4 ponto.

Esses resultados sugerem que o crescimento do indicador foi impulsionado exclusivamente pelo aumento das taxas de aprovação.
É importante destacar que a literatura educacional demonstra, de forma consistente, que reprovar mais estudantes não melhora automaticamente a aprendizagem. Ao contrário, em muitos casos a repetência costuma aumentar o risco de abandono, comprometer a autoestima dos/as estudantes e ampliar desigualdades educacionais.
No entanto, os resultados também indicam que simplesmente aumentar as taxas de aprovação, sem avanços correspondentes na aprendizagem, não resolve o problema. Quando estudantes não avançam em seu aprendizado, mas são aprovados/as em maior número, o sistema melhora seu indicador estatístico sem necessariamente ampliar as oportunidades reais de aprendizagem.
A própria lógica do Ideb pressupõe equilíbrio entre aprendizagem e fluxo escolar. Quando um dos componentes cresce isoladamente, o indicador precisa ser interpretado com cautela.
O que os dados sugerem para as políticas públicas?
Os resultados divulgados pelo MEC reforçam quatro prioridades para os próximos anos.
A primeira delas é consolidar políticas permanentes de recomposição das aprendizagens, especialmente nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Isso implica ampliar o tempo dedicado às aprendizagens essenciais, utilizar avaliações diagnósticas individualizadas e organizar estratégias diferenciadas para atender estudantes que apresentam diferentes níveis de desenvolvimento e que deixaram de consolidar habilidades básicas que são fundamentais para que possam se desenvolver em relação ao seu ano de escolaridade como ler e escrever, realizar operações básicas de matemática e resolver situações-problema.
A segunda prioridade é fortalecer a formação continuada de professores/as, aproximando-a cada vez mais da prática cotidiana da sala de aula. Mais do que oferecer cursos pontuais, as redes precisam investir em processos formativos permanentes que apoiem a qualificação das práticas pedagógicas, favoreçam metodologias de ensino capazes de ampliar o protagonismo dos estudantes e promovam o uso sistemático de evidências para orientar o planejamento docente.
A terceira diz respeito ao acompanhamento pedagógico realizado pelas equipes gestoras. O coordenador/a pedagógico/a exerce papel estratégico nesse processo ao apoiar o planejamento, observar aulas, promover devolutivas formativas e acompanhar continuamente o trabalho desenvolvido pelos/as professores/as. Pesquisas têm mostrado que práticas sistemáticas de observação de aulas e feedback formativo favorecem o desenvolvimento profissional docente e contribuem para melhorar as aprendizagens dos/as estudantes.
Ao mesmo tempo, a experiência internacional mostra que sistemas educacionais que conseguem combinar equidade, formação docente de qualidade e liderança pedagógica consistente tendem a produzir avanços sustentáveis na aprendizagem.
Por último precisamos avançar com equidade. É preciso não só olhar para a média geral, mas analisar os dados desagregados por raça/cor e nível socioeconômico para que possamos compreender quem está avançando e quem está ficando para trás e garantir políticas que considerem todos/as os/as estudantes, desenvolvendo ações específicas para grupos vulnerabilizados.
Os resultados do Ideb 2025 mostram que o Brasil segue avançando. Há razões para reconhecer o esforço das redes de ensino e celebrar a recuperação observada após um período extremamente desafiador. Ao mesmo tempo, os próprios dados evidenciam que ainda precisamos enfrentar dois desafios centrais: acelerar a aprendizagem no Ensino Médio e garantir que a melhoria dos indicadores represente, de fato, mais aprendizagem para todos/as os/as estudantes, e não apenas melhores taxas de aprovação.
Esses são os desafios que devem orientar as próximas políticas educacionais e as ações de formação, acompanhamento pedagógico e apoio às escolas.

Referências
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) 2025. Brasília: Inep, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/inep. Acesso em: 7 ago. 2026.
TODOS PELA EDUCAÇÃO. Análise dos resultados do Ideb 2025 e da nota padronizada do Saeb. São Paulo: Todos Pela Educação, 2026. Disponível em: https://todospelaeducacao.org.br/. Acesso em: 7 ago. 2026.
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