O Tempo: um relógio atrasado, adiantado ou no tempo? A perspectiva de uma professora.

por Catarina Vasconcelos

24/11/2025

Sou professora das Redes Municipais do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias. Em 2021, pós pandemia nos deparamos com uma situação extremamente desafiadora: uma lacuna enorme no processo de ensino e aprendizagem dos/as estudantes.

 

Em 2022, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto Gesto, hoje Motriz, e a Elos Educacional traz o Projeto Travessia. A secretaria de educação, SMERJ fica a frente, trazendo primeiramente como um projeto piloto, onde poucas escolas participaram e um número pequeno de professores/as foram convidados/as a participar dessa empreitada. E eu fui uma das contempladas para participar dessa formação.

 

A formação se dividia em uma carga horária presencial, com 5 encontros presenciais, reuniões virtuais, visitas de acompanhamento pedagógico e mentoria e apoio constante via grupo de WhatsApp, sempre que necessário.

 

A formação me fez refletir sobre o tempo, uma palavra que se tornou para mim uma dialética, pois concomitantemente pode soar como “muito tempo pela frente” ou “quanto tempo já perdemos?”

 

E foi nessa segunda opção que me agarrei e pautei meu trabalho. Meus estudantes estavam no 4º ano e 5º ano de escolaridade e ainda não estavam alfabetizados. Não tínhamos mais tempo a perder!

 

Somente após toda formação presencial que iniciei a intervenção com o grupo de estudantes.

 

Então chegou o momento da avaliação inicial que de forma cirúrgica me situou onde os/as estudantes estavam e qual seria o ponto de partida. E não somente no nível de aprendizagem, com esse primeiro contato percebi a baixa autoestima desse grupo.

 

Crianças caladas, ou com tom de voz por vezes inaudível, e em contrapartida, durante as aulas eram extremamente agitados, sem regras e limites.

 

A formação inicial sobre a metodologia nos preparou para trabalhos em equipe, delegando funções aos membros dos grupos destacando que todos/as têm relevância para resolver os desafios. E essa proposta auxilia na construção desses indivíduos como pessoa. No momento em que são aplaudidos/as, que os/as incentivamos a cada conquista, eles/elas percebem que são ouvidos/as, que têm VOZ! Exatamente isso! Nós paramos para ouvi-los de forma respeitosa e com atenção.

 

Em paralelo oferecemos atividades baseadas nas necessidades reais dos/as estudantes. O professor planeja a aula com intencionalidade pedagógica focando na progressão dos/as estudantes para o próximo nível de aprendizagem, tanto em Matemática quanto em Língua Portuguesa, um passo de cada vez!

 

E assim caminhamos.

 

Um tempinho depois chegou a avaliação intermediária e aqueceu meu coração comprovar o progresso dos/as estudantes. Eles/as estavam avançando!

 

O avanço já era percebido pelos/as professores/as regentes de sala de aula, pelos/as professores/as de outros componentes e isso foi uma explosão de alegria. Como esses/as estudantes estavam “enriquecendo”. Sim, o conhecimento era deles/as e ninguém poderá tirar!

 

Aquele perfil de estudante tinha mudado. Estavam mais atentos/as, dedicados/as e participativos/as. “Está até lendo” alguns professores/as me diziam. Aquele/a “caladão” deu lugar ao/à estudante com falas e posicionamentos pertinentes. A disciplina melhorou, realmente estavam participando. E assim, constatamos que o avanço era tanto social quanto cognitivo.

 

Ver essa lacuna de aprendizagem se estreitando num curto espaço de tempo foi realmente incrível!

 

Passou mais um tempinho e chegou o momento da avaliação final. Foi surpreendente ver os/as estudantes se deleitando em leituras em que há poucos meses alguns/algumas mal identificavam as letras do alfabeto, ou observar estudantes solucionando situações-problemas onde inicialmente não reconheciam números com 2 dígitos.

 

E as surpresas ultrapassaram os limites da sala de aula. No ano seguinte, alguns desses/as estudantes se candidataram ao Grêmio Estudantil, e sim, alguns/algumas tiveram suas chapas eleitas. Iam defender sua chapa e os interesses estudantis nas salas de aula junto à equipe diretiva da escola.

 

Não tem como não ser apaixonada pela metodologia Teaching at the right level.

 

Em 2023 tive a oportunidade de viver uma experiência incomensurável, participar de uma formação para ser formadora da metodologia em minha cidade. Desde então sou formadora da metodologia!

 

Nesse interim pude me aprofundar ainda mais na intencionalidade pedagógica das atividades, no encadeamento delas para a construção de um planejamento efetivo, com variações para atender aos diversos grupos de uma sala de aula. Eu me alimentei disso como uma leoa ávida, pois queria ter todos os subsídios necessários para poder ser uma formadora de excelência e inspirar professores/as da mesma forma que fui inspirada e afetada. Queria despertar nesses/as docentes a grande questão do Tempo!

 

Nesse intervalo, a Secretaria Municipal do Rio de Janeiro me convidou para participar da Curadoria do Caderno de Atividades do Projeto Travessia. Sim, adotamos e distribuímos na nossa rede o caderno de atividades para professores/as de forma impressa e disponibilizamos na nossa plataforma virtual.

 

No meu trabalho como formadora posso compartilhar as experiências reais da minha sala de aula, as intervenções realizadas e que trazem resultados. E fico realizada em ouvir o relato emocionante desses/as professores/as sobre os avanços de seus/suas estudantes. E aí, a história se repete! Hoje o projeto atende inúmeras escolas da nossa rede.

 

Mesmo sendo formadora, ainda não me despedi do projeto como professora. Atuo em sala de aula com a metodologia, desde 2022.

 

Ver os/as professores/as regentes da minha escola pedindo vaga para os/as seus/suas estudantes, pois tiveram experiência com outros/as estudantes que participaram em anos anteriores, valida o sucesso do trabalho desenvolvido. Esses/as colegas já entenderam que os/as estudantes não podem mais perder tempo!

 

O Projeto Travessia me despertou o interesse em saber mais e me aperfeiçoar acerca da recomposição de aprendizagem, em entender mais sobre habilidades basilares e mostrar na prática que recomposição de aprendizagem não é reforço escolar.

 

Esse ano de 2025, tive a oportunidade de uma colocação no Prêmio Magda Soares na minha cidade. Outro presente conquistado foi ser escolhida para receber os profissionais da instituição indiana, Pratham, junto com a equipe Motriz para conhecer um pouquinho da minha turma e do meu trabalho ao longo desse tempo.

 

Conhecer mais sobre a recomposição de aprendizagem nos faz repensar o termo “dificuldade de aprendizagem”. Às vezes, a necessidade do/a nosso/a estudante é só preencher essa lacuna de aprendizagem, buscar as habilidades basilares e conceitos por vezes mal trabalhados ao longo do tempo. Ah… o tempo!

 

Projeto Travessia, um divisor de águas na minha vida profissional. Obrigada!

 

“Peço-te o prazer legítimo, e o movimento preciso,

Tempo, tempo, tempo, tempo.

Quando o tempo for propício,

Tempo, tempo, tempo, tempo.

De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido.

Tempo, tempo, tempo, tempo;

E eu espalhe benefícios,

Tempo, tempo, tempo, tempo”

(Caetano Veloso)

 

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