Um dia para reafirmar a identidade dos Povos Indígenas

por Cleidiane Castro de Oliveira

19/04/2026

Neste 19 de abril, eu escolho reafirmar a nossa resistência, a nossa história, a nossa memória e a ancestralidade que nos sustenta. Sei que, para muitos, esta pode ser apenas mais uma data no calendário; mas para mim e para o meu povo, este é o momento de reafirmação da nossa identidade e de fortalecimento dos princípios e valores coletivos que sustentam a vida em nossos territórios.

A vida em comunidade é a base da minha existência: é nela que compartilho o alimento, escuto a Mãe Terra, sinto o vento como o guardião do tempo, respeito a natureza e reconheço, nos elementos sagrados, os caminhos de cura. É dessa forma que mantenho minha ancestralidade viva, pulsando no meu presente e orientando o futuro dos meus povos. No chão dos meus territórios, sinto pulsar a luta pela vida, pela dignidade, pela preservação das nossas tradições e pelo fortalecimento da nossa espiritualidade. Luto, sobretudo, pela terra, pois entendo que ela é a mãe de todas as lutas. Para mim, lutar pela terra é muito mais do que resistir: é afirmar quem somos, pois o meu corpo é o meu território.

Muito se discute sobre a Lei 11.645/08 e sua implementação nos contextos educacionais. No entanto, vejo que nossa história e nossa existência ainda são, muitas vezes, lembradas apenas neste dia 19 de abril, e, não raro, de forma equivocada, marcada por estereótipos que distorcem nossa real identidade. Minha cultura não é passageira e minha existência não se resume a uma data; os meus adornos não são fantasias. O meu cocar é minha coroa de luta, carregando significado, essência, ancestralidade e força. Meus rituais celebram o coletivo, a igualdade, a força do meu povo e a nossa conexão com o sagrado, um sagrado que não se vê, mas que eu sinto.

Manter viva a cultura do meu povo diante do avanço da tecnologia e da globalização é um desafio que venho superando, dia após dia, de forma coletiva em nossos territórios. Esse movimento é fortalecido por nossas lideranças, que constroem estratégias para engajar a minha juventude nas lutas, incentivando o protagonismo e a representatividade. Minha atuação envolve incluir as crianças nos processos de decisão, escutar com atenção os mais velhos, reconhecer a governança das mulheres e seguir lutando pela efetivação das políticas públicas que garantam nossos direitos. Para sustentar essa luta cotidiana, vejo na educação escolar indígena um papel fundamental, pois ela potencializa nossa cultura, reafirma nossas identidades, fortalece o protagonismo e o sentimento de pertencimento, cuidando de cada pessoa de maneira integral no território.

Reforço sempre que a minha escola não se limita a um prédio; ela se constitui no próprio território, com todos os seus elementos e instrumentos de resistência. A escola indígena não é apenas parte da luta: ela é a própria essência dessa luta e se move continuamente para fortalecê-la.

Nossos coletivos organizados, de jovens, mulheres e crianças, possuem um alto potencial para o fortalecimento da nossa cultura, valorizando nossas práticas e nossa espiritualidade no contexto coletivo, trazendo a evidência dos princípios da nossa etnia e a sabedoria dos mais velhos, que nos ensinam as ciências ancestrais passadas de geração em geração. Minha cultura, minha forma de ver o mundo e minha relação com a terra é o que nos faz diferentes da sociedade branca, diferente, não inferior, já que o princípio da igualdade para nós é um princípio humano. O fato de eu utilizar um relógio de marca, dirigir um carro, ocupar espaços políticos ou assumir cargos de poder não é motivo para a descaracterização da minha identidade. Nós sabemos ser o que queremos e podemos, sem deixar de ser o que somos.

O meu sangue de luta corre nas veias assim como as águas correm nos rios; somos sementes e renascemos com a força da natureza. Luto todos os dias em meus territórios para garantir que os nossos ocupem os espaços que, por muito tempo, diziam não ser lugar para nós, indígenas. Reconheço que há uma dívida histórica conosco; somos o que temos competência para ser e podemos ser o que entendemos ser importante para o nosso povo. E nós queremos muito: queremos que nossos jovens sejam os médicos que atendem nosso povo, os professores das nossas crianças, o produtor que vende o alimento saudável na escola e as lideranças do futuro que continuarão lutando pela dignidade dos nossos territórios. Falo muito de luta porque ainda enfrentamos uma tentativa de apagamento cultural enraizado na sociedade branca, um silenciamento das vozes que ecoam pelo futuro sustentável e pela vida na terra.

Nós sempre falamos sobre o cuidado com a natureza e quase ninguém ouvia; hoje o mundo grita “Emergência Climática” como se ninguém nunca tivesse alertado sobre isso antes, o que é um exemplo claro do quanto precisamos lutar para sermos escutados. Minha luta é por direitos, mas sem ferir a Mãe Terra, pois entendo que nem tudo que é bom para a sociedade branca é bom para ela, e é meu dever proteger quem me abriga, me dá alimento, me sustenta e me cura.

Escutar a Mãe Terra é minha essência ancestral; nós sabemos fazer isso com maestria por meio da nossa conexão espiritual, algo que não tem explicação, pois não há explicação para o sagrado. Por tudo isso, neste dia e em todos os outros dias do ano, peço respeito às nossas formas de vida e, sobretudo, às lutas dos Povos Indígenas.

 

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