Qual o seu papel no combate ao racismo?

por Janaina Sousa

02/07/2021

Caro(a) leitor(a), quero começar esse texto com uma afirmação: só se combate aquilo que se conhece!

É possível escolher o melhor xampu para o seu cabelo – entre as centenas de produtos que existem no mercado – sem conhecer o seu tipo de cabelo? É possível fazer um planejamento de aula que foque na aprendizagem dos(as) estudantes sem antes conhecer suas necessidades?

A mesma coisa acontece com o racismo. Só conseguiremos pensar em formas de combatê-lo, a partir do momento que aceitarmos que ele existe e está presente na minha, na sua, nas nossas vidas.

Peço licença para fazer uma analogia que ajude a compreender a gravidade da questão. Suponha que uma pessoa tem uma doença muito séria, mas não sabe. Ela sente alguns sintomas de vez em quando, mas vai até a farmácia, compra remédios e não procura um médico. Quanto mais tempo passa, mais a doença se agrava e os sintomas começam ficar mais frequentes e incomodar mais. Quando eles se tornam insuportáveis, a pessoa procura o médico e descobre que o tratamento será muito difícil e se demorasse mais um pouco não teria cura.

Algo semelhante acontece com o preconceito racial (e outros tipos de preconceito também). Percebemos alguns sintomas isolados e vamos tratando paliativamente, como um remédio que se compra na farmácia para cuidar de um problema que precisa de um diagnóstico e um tratamento muito maior. Enquanto não admitirmos que ele existe como uma questão sistêmica e que, portanto, é de todos que coexistem neste sistema, não podemos tratá-lo e em não o tratando, ele cresce, se torna mais grave e vai ficando cada vez mais difícil de se reverter.

Uma pesquisa foi promovida pelo Instituto Poder Data, com 2500 pessoas, em novembro de 2020. Veja os principais dados:

  • Quando questionados(as) se existe preconceito racial no Brasil, 81% dos(as) brasileiros(as) responderam afirmativamente.

  • Quando questionados se são preconceituosos, 34% dos(as) entrevistados(as) responderam que sim, que possuem preconceito contra a população negra.

Os dados nos mostram que chegamos num estágio que ou admitimos e adotamos o tratamento correto contra o preconceito ou poderá ser tarde demais. É alarmante pensar que 34% da nossa população, declaradamente se assume racista. Tão alarmante quanto, é constatar que embora 81% dos(as) entrevistados(as) admitam haver preconceito racial, apenas 34% afirmam ter preconceito, ou seja, a maioria reconhece o problema, mas não se vê como parte dele, o que possivelmente abre margens para se isentar da questão.

Por que será que não admitimos? O racismo está, de tal forma, arraigado na nossa estrutura que passou a se normalizar. Observe a imagem utilizada por Peter Senge no livro “Escolas que Aprendem” como forma de demonstrar como podemos “mergulhar” para descobrir a causa dos problemas.

O que vemos “acima do nível do mar” são os eventos explícitos de racismo – bullying na escola, tratamento desigual pela cor da pele, adolescentes negros(as) presos(as) e mortos(as) injustamente – ou seja, são só a ponta do iceberg.

O que está “abaixo do nível mar” e não aparece, mas sustenta esses eventos, são os padrões de comportamento, a estrutura sistêmica e os modelos mentais.

 

 

A análise da imagem nos mostra que não adianta solucionarmos os eventos se não modificarmos o nosso modo de pensar, de organizar nossas estruturas e os padrões de comportamento.

Silvio Almeida, autor que “mergulha” na pesquisa desse tema, nos alerta que comportamentos individuais são derivados de uma sociedade cujo racismo é regra e não exceção. Assim sendo, precisamos reivindicar mudanças profundas nas relações sociais, políticas e econômicas para que a estrutura hoje existente seja alterada. Ainda segundo o autor, é preciso entender que o racismo é estrutural (conforme ilustrei com a figura do iceberg), e não um ato isolado de um indivíduo ou um grupo e isso nos torna ainda mais responsáveis pelo seu combate.

A frase nos alerta para o fato de que enquanto lutamos e aguardamos que essas reformas mais profundas e complexas aconteçam, precisamos lembrar que da mesma forma que a estrutura influencia os indivíduos, também é influenciada por eles; por isso não podemos nos isentar da nossa responsabilidade individual, pois se atos isolados não são capazes de modificar o panorama geral do racismo em nosso país, certamente podem melhorar as relações nos locais onde estivermos. Precisamos “arregaçar as mangas” e iniciar a mudança com ações simples, independente do lugar que ocupamos.

Se você é liderança na área educacional, tem auxiliado sua rede a refletir sobre o tema, fazer um diagnóstico real e criar políticas de combate ao preconceito e respeito à diversidade? Tem analisado a representatividade do grupo que formula essas políticas?

Se você é gestor(a), já analisou se a caracterização da comunidade escolar que consta no projeto político-pedagógico de sua escola, traz dados relacionados a cor dos(as) estudantes e profissionais da unidade? Se sim, que uso você faz desses dados para pensar as ações e projetos que serão desenvolvidos coletivamente? Já promoveu alguma pesquisa entre alunos(as), profissionais e famílias para saber se já sofreram algum tipo de preconceito em decorrência da cor da sua pele? Já analisou se o livro de ocorrências traz eventos relacionados ao racismo? Como esses casos são resolvidos: olhando só para o evento ou analisando o que está abaixo dele?

Se você é professor(a), promove ações de conscientização, debates e valorização da cultura africana fora de datas como libertação dos escravos e consciência negra? Observa o comportamento e escuta ativamente os(as) estudantes?

As famílias devem conversar abertamente com as crianças e ensiná-las a tratarem todos com igualdade e sendo essas crianças negras, devem ensiná-las a se valorizar, reconhecer e denunciar atitudes racistas.

Empresas devem repensar suas políticas de acesso, monitoramento das desigualdades e o quanto estão ou não promovendo espaços de discussão e valorização da diversidade.

E todos, sem exceção, devem praticar o antirracismo, ou seja, não basta não ser racista, é preciso adotar uma postura ativa de combate ao racismo. Pare, pense, autoavalie o que você pode fazer, saia do campo das ideias e aja! Como disse Nelson Mandela:

Fonte: Revista Seleções, 2019

 

Uma boa forma de se autoavaliar é atentar-se ao vocabulário que utiliza em seu cotidiano, mas isso é assunto para um outro texto, afinal, essa discussão não termina aqui.

 

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Silvio Luiz. Racismo estrutural. São Paulo: Editora Jandaíra. 2020.

SENGE, Peter. Escolas que aprendem: um guia da quinta disciplina para educadores, pais, e todos os que se interessam pela educação. Porto Alegre: Artmed. 2005.

81% veem racismo no Brasil, mas só 34% admitem preconceito contra negros. Poder 360, 2020. Disponível em <https://www.poder360.com.br/poderdata/81-veem-racismo-no-brasil-mas-so-34-admitem-preconceito-contra-negros/>. Acesso em 19 de maio de 2021.

O que podemos aprender com Nelson Mandela? Revista Seleções, 2019. Disponível em <G:Drives compartilhados2021_InstitutoJoaoMaria2021_DocumentosDiagnostico

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