Os desafios de ser pedagogo/a

por Ana Luzia da Silva Vieira

16/05/2022

Basta olhar para a definição da licenciatura em Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e de tantos outros programas curriculares de graduação, para verificar a grandiosidade dessa formação.

 

Pedagogia é um curso voltado para a formação de profissionais de educação por meio de uma sólida formação teórica e pela iniciação à prática docente, aptos a trabalharem na produção e difusão do conhecimento científico-tecnológico do campo educacional, em contextos escolares e não escolares, na promoção da aprendizagem de sujeitos em diferentes períodos da vida, em diferentes etapas e modalidades da Educação Básica e demais atividades do processo educativo.

Faculdade de Educação – USP

http://www4.fe.usp.br/graduacao/institucional/pedagogia

 

De fato, é grande nossa responsabilidade, uma vez que me incluo nessa função, especialmente quando consideramos que a maioria das profissões dependem da base sustentada pelas orientações e acompanhamento de um pedagogo. Afinal, o futuro profissional, normalmente teve sua passagem pelos bancos de uma sala de aula.

Segundo Lívia Magri, jovem de 18 anos, que acabou de passar no vestibular em Pedagogia, afirma ter escolhido este curso porque gostaria de “entender como funciona a educação e ser capaz de ensinar as futuras gerações”. Da mesma forma, Victória Tavares, estudante de Pedagogia nos mostra os motivos que a levaram a essa escolha:

 

Escolhi pedagogia por acreditar que a educação é o início, meio e fim de tudo. Não imaginava todas as barreiras e desvalorização, quando escolhi essa profissão, pensei apenas nas pessoas que eu atravessaria e marcaria de alguma forma. Costumo dizer que essa escolha foi por todas as crianças, inclusive a minha criança interior.

 

Assim como elas, muitos escolhem essa profissão por acreditar que é possível contribuir e fazer a diferença. Alguns professores fizeram a diferença na minha vida acadêmica, outros ainda fazem e, como educadora, vi resultados do meu trabalho, que me deixaram orgulhosa de ser uma pedagoga. Uma profissão que me possibilitou muitas escolhas assertivas e a realização de diferentes sonhos, especialmente de atuar em um trabalho que me exigia estudo e aperfeiçoamento constante. Com certeza o/a pedagogo/a, sendo alguém que estimula, acompanha e promove a formação, precisa gostar de estudar e, além do que, a depender do contexto de trabalho, o percurso formativo do/a profissional, pode reverberar em uma progressão de carreira, tornando-se motivo de incentivo e realização profissional.

Ser pedagogo/a traz boas vantagens e uma delas é que o campo de atuação é amplo e diversificado. Podemos adentrar às escolas como professores/as da Educação Infantil (EI), Ensino Fundamental (EF), Educação de Jovens e Adultos (EJA) ou como integrante da gestão escolar, como diretor/a, coordenador/a pedagógico, supervisor/a ou orientador/a educacional. Ao contrário de como a maioria das pessoas pensa, o curso de Pedagogia pode extrapolar os muros da escola e oferecer, também, outras atuações profissionais, como pesquisa, treinamento, recursos humanos, consultoria pedagógica, docência universitária, entre outras. As ofertas de trabalho são frequentes e dificilmente um/a pedagogo/a permanece fora do mercado de trabalho por falta de opção.

Se são muitas as vantagens, também enfrentamos muitos desafios e, nos últimos anos percebemos um desgaste da nossa profissão.

Observamos uma diminuição de procura pelo curso de Pedagogia, como vimos no último vestibular da FUVEST 2022 (quadro a seguir) ou na suspensão da oferta do curso, como aconteceu em 2022 do Centro Universitário Fundação Santo André (FSA)

 

Fonte: https://acervo.fuvest.br/fuvest/2022/FUVEST_2022_relacao_candidato_vagas.html

 

 

Alguns critérios são decisivos para a não escolha, dessa profissão por jovens, como a desvalorização salarial e os desafios da sala de aula, o que, muitas vezes, reflete em nossa própria desvalorização como profissionais da educação. Sempre me questiono se estamos inspirando nossos jovens para a escolha da nossa profissão. Quantos/as de nós tem um filho/a ou sobrinho/a que gostaria de fazer Pedagogia? Quantos/as de nós somos educadores/as e deixamos de afirmar que nossa profissão vale a pena?

Sentimos, na prática, o descompasso entre o que é oferecido na formação inicial e o que é essencial para garantir a qualidade de trabalho realizado em sala de aula, especialmente quando se trata das especificidades das áreas de atuação do pedagogo, a depender da etapa e/ou modalidade a ser trabalhada. Normalmente, os/as pedagogos/as que chegam às escolas, são profissionais que muitas vezes aprendem como se faz, fazendo. O/A gestor/a, quase sempre, também aprende a gerir a escola na prática, salvo algumas redes de educação que estão investindo em formações em processos seletivos para a equipe gestora, com foco nessa especificidade e instrumentalizando a pessoa que irá realizar essa função.  A discente Victoria Tavares, nos conta suas percepções sobre sua formação inicial:

Acredito que o curso em si (teoricamente falando), é apenas o início de uma longa jornada. Nenhuma faculdade ensina o dia a dia, imprevistos, improvisos e adaptações de uma sala de aula. A pedagogia nos coloca no lugar de alguém que está sempre adaptando algo para outras pessoas, tudo isso com o foco no desenvolvimento e aprendizagem, independente de conteúdo. O curso é a nossa base e o restante construímos de acordo com as nossas escolhas: em sala de aula, projetos e afins.

Se o pedagogo já vinha enfrentando muitos desafios nas escolas para engajar, envolver, encorajar, estimular e potencializar o desenvolvimento de habilidades e competências dos/as estudantes, independentemente de turma e contexto social, independente se em sala de aula ou na gestão escolar, depois deste período pandêmico, com o retorno às aulas presenciais, os desafios aumentaram.

A pandemia impactou direta e negativamente as aprendizagens e buscar o enfrentamento desse desafio que pede a recomposição de aprendizagem, a equiparação de oportunidades, o foco em habilidades essenciais, melhor aproveitamento do tempo escolar e um diagnóstico de aprendizagem para cada estudante, nos leva a reafirmar a função de pedagogo, como responsável por organizar o processo de ensino e aprendizagem.

Mais do que nunca vamos precisar elencar aquilo que é essencial do essencial, planejar de forma que possamos contemplar a diversidade dos níveis de aprendizagem e potencializar o tempo escolar.

Reafirmamos a cada instante a necessidade de atualização, de novas metodologias de ensino, muitas trocas entre pares e de um percurso formativo contínuo, intencionalmente planejado, para que o processo de ensino e de aprendizagem se torne eficaz.  Não temos tempo a perder. Ao contrário, precisamos ser rápidos e garantir que cada vez mais estudantes avancem, em suas aprendizagens. Como diz o educador e pesquisador António Nóvoa (GENTILE, 2001) “O aprender contínuo é essencial em nossa profissão. Ele deve se concentrar em dois pilares: a própria pessoa do professor, como agente, e a escola, como lugar de crescimento profissional permanente.”

De qualquer forma, sendo gestor/a ou professor/a, enquanto pedagogo/a, é na escola junto aos/às estudantes que enfrentamos nossos maiores desafios.

Precisamos dar o primeiro passo!

 

 

 

Referências:

António Nóvoa: “professor se forma na escola” [Entrevista concedida a GENTILE, Paola. Nova Escola. 01 de Maio de 2001]. Disponível em:  https://novaescola.org.br/conteudo/179/entrevista-formacao-antonio-novoa Acesso em: 22/02/2022.

GURGEL, Thais. Currículo dos cursos de Pedagogia não prepara para a realidade escolar. 01 de Outubro | 2008. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/1377/curriculo-dos-cursos-de-pedagogia-nao-prepara-para-a-realidade-escolar Acesso em: 22/02/2022.

Estudos E Pesquisas, Pesquisas De Opinião. Ensino Médio: O Que Querem Os Jovens? 02 de maio I 2017. Disponível em: https://todospelaeducacao.org.br/noticias/pesquisa-ensino-medio-o-que-querem-os-jovens/ Acesso em: 22/02/2022

FEUSP. Graduação: licenciatura em pedagogia. Disponível em: http://www4.fe.usp.br/graduacao/institucional/pedagogia. Acesso em: 22/02/2022.

PERES, Paula. Somente 23% dos professores recomendariam a profissão aos jovens: o principal motivo do descontentamento é a desvalorização da carreira, aponta pesquisa. 01 de Agosto | 2018. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/12215/somente-23-dos-professores-recomendaria-a-profissao-aos-jovens Acesso em:  22/02/2022

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Comentários sobre o texto

  1. Lilian Fotin Talib disse:

    Parabéns, Ana Luiza Vieira! Muito bom o seu artigo. Infelizmente nossos estudantes não se animam com essa profissão tão especial. O projeto de educação apresentado no país não estimula a juventude a essa caminhada. Tomara que modifique essa visão.

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