Os espaços na escola têm relação com a aprendizagem dos/as estudantes?

por Edneia Burger

06/06/2022

A resposta é sim! A organização dos espaços, a limpeza, os avisos e cartazes afixados nos quadros e paredes, os materiais disponibilizados, seja ele, sala de aula, pátio, secretaria, biblioteca, corredores etc., reflete as concepções de escola e o cuidado com o clima escolar.

As paredes podem conter as produções dos/as estudantes e ainda serem portadoras de informações importantes para a comunidade escolar.

Todos/as os/as profissionais da escola, devem ter conhecimento de como realizar um bom planejamento dos espaços escolares e, a equipe gestora, tem um papel fundamental nesta ação, realizando reuniões formativas, orientações e acompanhamento da organização e uso. Os/As supervisores/as escolares ou técnicos/as de secretaria de educação também podem contribuir para esta ação durante o acompanhamento das escolas, observando o uso dos espaços e discutindo junto à equipe gestora, aspectos positivos e possibilidades de aprimoramento.

Mas, o que de fato podemos observar nesses espaços?

O espaço escolar

O espaço escolar, deve, na sua essência, promover a aprendizagem de todos/as estudantes. O pátio, os corredores, salas de aula, banheiro podem tornar-se portadores dessa mensagem.

Quando a escola tem um ambiente limpo, organizado, com painéis, cartazes dispostos de maneira a oferecer informações relevantes à comunidade escolar (professores/as, funcionários/as, pais e responsáveis de estudantes, estudantes e comunidade local), podemos considerá-lo, de fato, um ambiente que educa, um ‘exemplo’ do que esperamos que seja adequado.

Um ponto importante a ser considerado é a cultura local, ou seja, os
hábitos que fazem daquela comunidade, uma comunidade única, um lugar de encontros e de compartilhamento no qual as pessoas que fazem parte elaboram um sentido e um significado para as práticas, intenções e ações nela existentes, ao mesmo tempo em que condiciona e estabelece um conjunto de relações e de práticas. (GHEDIN; FRANCO, 2008)

Voltando à nossa questão inicial: o que observar no espaço escolar?

E a resposta é: todos os ambientes

 

Ressalto a importância do olhar estratégico para identificar as questões relacionadas à qualificação dos espaços pela da equipe gestora e supervisores/as escolares ou técnicos/as de secretaria de educação

Para ilustrar, a seguir, apresento algumas possibilidades de reflexão com a comunidade escolar para que os espaços da escola, de fato, reflitam um ambiente de aprendizagem.

 

Paredes

As paredes da escola, de forma geral, apresentam informações à comunidade escolar ou expõem trabalhos realizados pelos/as estudantes.

É fundamental um olhar atento para as informações nelas contidas.

O que elas expõem e com qual objetivo?

Ao nos depararmos com paredes vazias, podemos refletir: por que não usá-las com informações relevantes ou produções dos/as estudantes?

Algumas paredes da escola podem exibir estereótipos, ou seja, imagens que não tenham relação com aquela comunidade ou cultura, por exemplo, sabemos hoje que as famílias possuem diversas organizações: estudantes que vivem com os avós, ou somente com o pai ou mãe, com os tios, com dois pais ou duas mães; estudantes de famílias negras ou brancas, negras e brancas, indígenas e de outras etnias. Sendo assim, na parede tem exposto o cartaz da ‘Festa da família” com a imagem de uma família composta por pai, mãe e filho/a todos/as brancos?

Muitas escolas exibem a produção de estudantes. Nesse sentido, podemos fazer algumas análises:

Qual a quantidade de materiais expostos?

Qual o objetivo de expor uma atividade e não outra ou de um/a estudantes, grupo e não de outro/a?

O que está exposto não só deve passar a mensagem de um bom ‘exemplo’ de produção dos/as estudantes para os/as demais também. Por exemplo, um cartaz com erros ortográficos, seria um bom exemplo para os/as estudantes? Vale destacar que a exposição da produção dos/as estudantes, amplia a sensação de pertencimento e de corresponsabilidade de cada um/a que por esta ação.

Outras paredes podem apresentar informações da escola:

Qual a quantidade de materiais expostos?

Qual o objetivo?

Aqui a reflexão é: o que está exposto é realmente importante e com informações atualizadas?

Vejamos alguns exemplos: paredes com informações sobre a aprendizagem dos/as estudantes (resultados das avaliações internas, externas, etc.), possibilitam à comunidade escolar a apropriação dos dados e, consequentemente, aumenta a responsabilização por alavancá-los, uma vez que passa a ser de conhecimento do coletivo. A exposição das regras de convivência para todos/as deixa evidente o que é esperado de cada um/a naquele ambiente e permite uma rápida consulta em caso de dúvidas.

As informações fixadas nas paredes devem estar dispostas de forma a permitir que toda a comunidade escolar possa ver ou ler. Lembre-se: uma mesma escola pode ter estudantes de idades e tamanhos diversos. São, então, focos observáveis das paredes:

 

Sala de aula

Paredes
As paredes das salas de aula podem ser fonte de informação ou distração. De acordo com Lemov “a primeira regra básica para as paredes das melhores salas de aula é que elas devem ajudar, não atrapalhar” (LEMOV, 2011) A informação deve estar disposta de forma que todos/as os/as estudantes possam ver / ler.

 

Disposição das mesas e cadeiras

Um ponto importante a ser observado é se as carteiras estão organizadas de acordo com o objetivo das atividades propostas. Por exemplo: para realizar uma discussão mediada pelos/a professor/a, as cadeiras e carteiras organizadas em grupos de 6 pode não ser uma boa disposição, já que os/as estudantes podem ter que se virar para participar. Uma possibilidade, nesse caso, seria as carteiras dispostas em semicírculo. Algumas reflexões são importantes para pensar nessa organização: quais interações serão propostas ao longo da atividade? A disposição das carteiras favorece a interação pretendida? De que outras formas os/as estudantes poderiam ser organizados para interagir? (LEMOV, 2011).

 

São, então, focos observáveis da disposição das mesas e cadeiras:

 

Organização dos materiais

A organização dos materiais, tanto dos/as estudantes como do/a professor/a, é importante para manter agilidade na rotina da aula, bem como demonstra o quanto este espaço é importante para as pessoas que convivem nele.

 

Seguem alguns focos observáveis da organização dos materiais:

 

 

Biblioteca ou sala de leitura

Embora a leitura possa ser realizada em qualquer espaço, a biblioteca ou sala de leitura deve ser um ambiente que desperte o prazer de ler e que torne a leitura um hábito.

A leitura é um dos passos fundamentais para o processo de alfabetização; o entendimento de assuntos distintos; o contato com várias culturas diferentes; para nos tornarmos reflexivos; para aumentar o conhecimento e o vocabulário; para ficarmos mais informados sobre o que acontece no mundo e também para divertir.

 

Então, o que podemos observar na biblioteca ou sala de leitura? Seguem alguns focos observáveis para a biblioteca ou sala de leitura:

 

 

Para colocar em prática

Essas são somente algumas sugestões de focos observáveis. Cada escola, cada rede de ensino deve ter em mente quais são os aspectos que podem ser considerados relevantes e que possibilitam a aprendizagem de toda a comunidade escolar, em especial, a aprendizagem de cada um dos/as estudantes que fazem parte da escola, valorizando o protagonismo, elevando a sensação de pertencimento, corroborando com o processo de responsabilização de cada um/a e daquele coletivo com um ambiente especialmente acolhedor e educativo para aqueles/as que dele fazem parte.

Quer saber mais, acesse o e-book que apresenta alguns modelos de formulários de focos observáveis na escola.

Convido você, professor/a, gestor/a escolar e  supervisor/a escolar ou técnico/a de secretaria de educação, a colocar em prática algumas dessas dicas em sua escola ou rede e compartilhar como foi com a gente!

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GHEDIN, Evandro; FRANCO, Maria Amélia Santoro. Questões de método na construção da pesquisa em educação. São Paulo: Cortez, 2008.
LEMOV, Doug. Aula Nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. Tradução de Leda Beck, consultoria e revisão técnica: Guiomar Namo de Mello e Paula Louzano. São Paulo: Da Boa Prosa: Fundação Lemann, 2011.

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Comentários sobre o texto

  1. Lilian Fotin Talib disse:

    Parabéns, Edneia! Gostei muito do seu artigo.
    O espaço escolar é a parte física do DNA da instituição. Saber ler esse espaço é de grande utilidade para o aprimoramento da educação. A parede “branca” não é uma parede “limpa”, carrega nela uma intencionalidade, assim como a disposição do mobiliário. Mais uma vez, parabéns!!!

    1. Edneia Regina Burger disse:

      Oi, Lilian!
      Obrigada por seu comentário!
      Realmente a todos os espaços da escola podem ser de aprendizagem, mas para isso, precisamos imprimir a intencionalidade e não somente um suporte sem função!

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