mulher mercado de trabalho

As competências socioemocionais no contexto da educação infantil

por Elaine Stella

21/05/2021

Uma das principais mudanças trazidas pela Base Nacional Comum Curricular são as 10 competências gerais. Elas trazem a base da formação desejada para todos os estudantes da Educação Básica, articulando competências cognitivas e socioemocionais aos princípios éticos, estéticos e políticos, favorecendo uma visão ampla de Educação Integral.

Na Educação Infantil, as 10 competências gerais se desdobram em direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento, dentro dos 5 campos de experiência dessa etapa. Os campos indicam quais são as experiências fundamentais para que bebês, crianças bem pequenas e crianças pequenas desenvolvam noções, habilidades, atitudes, valores e afetos que e buscam garantir os direitos de aprendizagem na faixa etária dos 0 aos 5 anos. Dentro desse contexto, as habilidades socioemocionais se constituem como um importante elemento de desenvolvimento tanto do(a) docente quanto dos(as) estudantes.

Mas o que é e quais são as competências socioemocionais? Como transpor os conceitos para a prática educacional com foco na educação infantil?

As competências socioemocionais se encaixam no conjunto de habilidades que desenvolvemos para lidar com nossas emoções durante os desafios cotidianos e estão ligadas à nossa capacidade de conhecer, conviver, trabalhar e ser.

Oliver John sugere uma divisão das competências em cinco eixos: abertura ao novo (que se desdobra em curiosidade para aprender, imaginação criativa e interesse artístico), autogestão (determinação, organização, foco, persistência e responsabilidade), engajamento com os outros (iniciativa social, assertividade e entusiasmo), amabilidade (empatia, respeito e confiança) e resiliência emocional (tolerância ao estresse, autoconfiança e tolerância à frustração).

socioemocional infantil

Fonte: Instituto Ayrton Senna

 

Essas competências se manifestam pelo modo como sentimos, pensamos, agimos e nos comportamos. Elas auxiliam no processo de aprendizado, apoiam para que os indivíduos consigam fazer escolhas responsáveis sobre a vida em sociedade e contribuam com o seu entorno social, saibam resolver problemas, trabalhem em grupo, enfrentem situações difíceis de maneira assertiva, criativa e construtiva e tenham realização educacional, pessoal e profissional.  É em torno desses pontos que se constrói um aprendizado que possa guiar o(a) aluno(a) por toda sua vida.

Algo muito importante a se ressaltar é que todas as competências podem ser desenvolvidas. Dentro do contexto educacional, para que esse desenvolvimento ocorra é necessário que o(a) professor(a) tenha intencionalidade em sua prática docente. É preciso ter consciência das competências que se busca desenvolver, planejar as atividades e acompanhar as ações e reações dos(as) alunos(as).

Primar pelo desenvolvimento socioemocional de crianças pequenas e muito pequenas, gera uma série de impactos positivos em seu futuro, entre os quais podemos citar:

  • melhora de resultados nas disciplinas tradicionais do currículo;
  • ajuda no preparo para o mundo, formando pensadores(as) críticos(as) e atuantes;
  • promove a equidade por meio do diálogo em relação às necessidades da sociedade civil, mobilizando, também, as famílias;
  • desenvolve a perspicácia de olhar para as próprias atitudes, autoavaliar pontos fortes e fracos, desenvolver um senso de confiança autônomo e fomentar o próprio crescimento pessoal, tendo assim discernimento para construir seu projeto de vida e preparo para o mercado de trabalho;
  • auxilia ter controle sobre as próprias emoções, comportamentos e pensamentos diante das mais diversas situações;
  • proporciona comunicar-se com clareza, ouvir e cooperar com os outros, resistir à pressão social quando ela for inadequada, negociar conflitos de maneira construtiva, saber pedir e oferecer ajuda quando necessário.

De maneira geral, quem aprende a gerenciar suas emoções, ainda na infância, terá mais repertório para alcançar seus objetivos ao longo da vida, demonstrar empatia pelo outro, criar e manter relações sociais positivas e tomar boas decisões, entre outras coisas.

Para ser um aprendizado efetivo e replicável, uma aula sobre resiliência ou amabilidade não é suficiente. Os (As) docentes precisam auxiliar as crianças a transformar essas habilidades em ações práticas e utilizá-las em seu dia a dia e na interação com outras pessoas.

Desenvolver as habilidades propostas nos campos de experiência da Educação Infantil requer que o(a) professor(a) também desenvolva suas próprias competências socioemocionais. Como dizia Paulo Freire “É fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz de tal forma que num dado momento, a tua fala seja a tua prática.”

Conhecer-se é uma questão filosófica que percorre gerações e gerações. Tal conhecimento, porém, exige reflexão profunda sobre valores, atitudes, desejos e necessidades. O autoconhecimento nos permite traçar um mapa pessoal com oportunidade de interpretar melhor quem somos e, principalmente, aonde queremos chegar.

No fazer docente, é preciso reflexão intensa e periódica para que se possa afirmar o quanto se sabe sobre si mesmo, quais são as próprias características pessoais, forças e fragilidades. Algumas questões que podem ser pensadas:

  • Quais são as habilidades que e como professor(a) acredito que sejam importantes para minha atuação?
  • Eu consigo identificar quais são minhas forças e fragilidades?
  • Quais competências percebo que já tenho mais desenvolvidas?
  • Quais competências percebo que tenho menos desenvolvidas?
  • Na minha experiência como professor(a) o quão importante é a dimensão socioemocional e por quê?
  • Qual a importância de cada uma das macrocompetências: amabilidade, autogestão, engajamento, resiliência emocional e abertura ao novo para o meu fazer docente e para a vida?

Entender e gerenciar as próprias emoções e estabelecer relações positivas com seus(suas) colegas e alunos(as) impacta positivamente a vida do(a) professor(a), o ambiente escolar e, consequentemente, o aprendizado das crianças. A dimensão socioemocional ganha forma e permite que as atividades realizadas em sala de aula não sejam apenas metas teóricas do currículo escolar. Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) intitulado “Competências para o progresso social: o poder das competências socioemocionais” indica que “competência gera competência”.

O processo de desenvolvimento das competências socioemocionais é contínuo, aqui exploramos apenas alguns conceitos e possibilidades de reflexões para despertar o interesse e promover a conscientização da importância das próprias habilidades. Trazemos também algumas indicações de atividades práticas que podem ser utilizadas com crianças pequenas ou muito pequenas:

  • Promover aulas por meio de oficinas, análise do conhecimento de si e do outro, roda de conversas sobre felicidade, amor, empatia e outros;
  • espaço para desenhos e autorretrato;
  • contação de histórias que tragam o tema de forma à tona;
  • análise de fragmentos de filmes infantis;
  • compartilhamento de talentos utilizando as diferentes linguagens, como a dança e a música;
  • régua ou painel das emoções;
  • encenar situações fantasiosas ou narrativas e rituais conhecidos;
  • possibilitar ações sociais, solidárias e voluntárias;
  • cantigas, brincadeiras de roda, jogos cantados;

Todas essas sugestões têm potencial para aplicação, no entanto, vale lembrar que o desafio do trabalho com o socioemocional não se restringe aos professores, é um desafio de toda comunidade educativa e por isso não será superado com aulas espaçadas. Essas competências são desenvolvidas por meio da observação, da convivência e do diálogo e, por isso, sua implementação requer estudo e planejamento a fim de que a inovação proposta pela BNCC seja efetiva e traga uma mudança de cultura que seja aliada da escola.

Nota: Oliver P. John compõe o grupo denominado DORF, com o Prof. Daniel Santos (LEPES), Ricardo Primi (Universidade São Francisco) e Filip de Fruyt (Universidade de Ghent) que juntaram esforços na criação do que é hoje a agenda socioemocional do laboratório. Oliver é professor do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, Berkeley e psicólogo pesquisador do Instituto de Personalidade e Pesquisa Social, onde atua também como diretor interino. Ele possui formação em Economia e Psicologia pela University of Bielefeld, Alemanha e PhD em Psicologia Social/Personalidade pela University of Oregon. Sua pesquisa se concentra em compreender como os fatores da personalidade interagem com fatores situacionais e ambientais que influenciam a vida das pessoas, predizendo importantes resultados sociais.

elaine stella

 

Referências bibliográficas

 

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Comentários sobre o texto

  1. CLAIR MORON DOS SANTOS MUNHOZ disse:

    Ótimo artigo.

  2. Rosangela da Costa Muniz disse:

    …As competências socioemocionais estão inseridas no conjunto de habilidades que diariamente desenvolvemos no cotidiano.
    Se faz necessário conhecer,conviver,trabalhar e ser!Deste modo haverá;abertura ao novo,autogestão,engajamento com os outros,amabilidade e resiliência emocional!

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